Norie (Núcleo Orientado para a Inovação na Edificação) vence Prêmio Iniciativa Setorial de Destaque 2009 | Construção Mercado

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Prêmio PINI 2009

Norie (Núcleo Orientado para a Inovação na Edificação) vence Prêmio Iniciativa Setorial de Destaque 2009

Contato permanente com o meio produtivo faz de entidade porto-alegrense referência em pesquisa e desenvolvimento tecnológico no setor

Por Thiago Oliveira
Edição 101 - Dezembro/2009

Daniela Villar
Pesquisadores e funcionários do Norie, em frente à sede da entidade

A preocupação em contribuir com aspectos práticos da construção civil norteia a filosofia do Norie (Núcleo Orientado para a Inovação na Edificação) desde a fundação da entidade, há 35 anos. Centro de pesquisa na área de construção civil, vinculado à UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o grupo traz respostas objetivas às demandas do setor, tanto nas pesquisas aplicadas, que desenvolve junto a construtoras e empresas do setor, quanto na produção de trabalhos essencialmente acadêmicos.

O esforço contínuo valeu ao grupo, este ano, o título de "Iniciativa Setorial de Destaque", concedido pela PINI no âmbito do 15o Prêmio PINI - Melhores Fornecedores da Indústria da Construção Civil e Arquitetura no Brasil. Com a láurea, o Norie passa a integrar uma galeria de poucos e notáveis homenageados, que inclui o Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo) - congratulado inaugural, em 2005 -, e a unidade do Senai-SP Orlando Laviero Ferraiuolo, especializada na formação de mão de obra para os canteiros. Em 2007, o título coube ao curso de mestrado em habitação do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnoló­gicas do Estado de São Paulo). Já em sua edição mais recente, no ano passado, foi concedido ao Núcleo de Real Estate da Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo).

Cadinho Andrade
Eduardo Luis Isatto (à esq.), coordenador geral do Norie, recebe do presidente da Editora PINI, Ademir Nunes, o prêmio "Iniciativa Setorial de Destaque"
Trajetória

"No Norie, tudo começou em 1974, como um grupo de extensão universitária, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil e ao Departamento de Engenharia Civil da Escola de Engenharia da UFRGS, voltado a desenvolver sistemas construtivos de escolas e centros sociais", conta o professor Carlos Torres Formoso, coordenador do grupo de gerenciamento e economia da construção do Núcleo. "Havia um foco maior em industrialização que, depois, se expandiu para a inovação - quando o grupo passou a trabalhar também com conforto ambiental e gerenciamento da construção."

Na análise do coordenador geral do Norie, professor Eduardo Luis Isatto, o estreitamento do grupo com o mercado é incentivado por uma particularidade da pesquisa na área de construção no Brasil: a falta de laboratórios nas universidades. "Exceto em algumas linhas restritas, como a parte de materiais, não existe esse espaço interno - o que acaba estimulando os grupos a trabalharem nas empresas", afirma.

O que poderia levar a crer que, envolvida nessa particularidade de falta de laboratórios, qualquer instituição acadêmica pudesse interagir bem com a indústria produtiva, na verdade mostra-se uma conclusão relativa. "Para que essa relação dê certo, é preciso que o programa acadêmico seja aberto e sistêmico. O Norie nasceu com esse perfil. Trabalhamos com conforto, materiais, paisagismo, sustentabilidade, gestão - tudo de forma integrada, porque os problemas reais são assim", argumenta Carlos Formoso.

Provas dessa multidisciplinaridade estão espalhadas por todo o núcleo, a começar pela própria divisão organizacional, estruturada em diversos temas e linhas de pesquisa (veja boxe). Além disso, há um incentivo compulsório à troca de experiências nos diferentes encaminhamentos de estudo. "O aluno que entra no curso de mestrado não é especializado; ele obrigatoriamente faz cadeira em várias áreas, para entender um pouco de outros campos e interagir melhor com colegas de outras turmas", exemplifica o professor-assistente Luis Carlos Bonin.

Outro aspecto mais indireto que favorece a troca de ideias e experiências é a liberdade com que integrantes do Norie circulam pelo prédio. "Na maior parte dos grupos de pesquisa, há uma separação muito forte entre alunos e professores", observa Bonin. "Aqui não existe nenhuma segregação física. Todos possuem cópias das chaves do prédio, e os alunos têm liberdade de acessar diretamente as salas dos professores sem agendamento. São características históricas do grupo que procuramos preservar."

divulgação Norie
Sede do Norie, situada em prédio histórico da UFRGS construído na primeira década de 1900
Interação acadêmica

Ainda no tópico das peculiaridades do Norie, um detalhe chama a atenção: calcula-se que metade dos alunos da entidade permaneça no meio universitário, depois de formados. "É um percentual muito alto, comparado com alguns outros grupos no Brasil, que têm como características formar profissionais que vão para a área de produção", expõe Bonin.

Uma das possíveis explicações para esse efeito acadêmico multiplicador do Norie pode estar na interação com outros grupos de pesquisa espalhados pelo País. É comum, por exemplo, o núcleo firmar convênios pelos quais envia professores a outras instituições. Os destinos são variados: Belém, Recife, Fortaleza, Feira de Santana (BA), Londrina (PR), Florianópolis.

"Esse auxílio acontece de parte a parte. Quando estivemos em dificuldade, outros grupos nos ajudaram também", lembra Luis Bonin. O professor se refere em especial ao período entre 1988 e 1989, marco de transição da primeira para a segunda geração do Norie, quando a entidade quase fechou as portas, fragilizada pela falta de professores. "Muitos se aposentaram, outros se afastaram do País, e ficamos com pouca massa crítica", relata Bonin.

Para que o núcleo se reerguesse, o apoio de docentes da USP (Universidade de São Paulo) foi fundamental. "Professores do PCC (Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica), como o Vahan Agopyan e o Paulo Helene, fizeram esforços pessoais para sustentar nosso grupo", cita Bonin, e dá detalhes: "O professor Vahan chegou a pagar passagens do próprio bolso, que só recebeu depois de dois anos, para vir dar aula aqui".

Bonin salienta que reflexos como esses na relação entre os grupos de pesquisa das universidades são ignorados pelas estatísticas oficiais, restritas em contabilizar a produção das entidades em números. A esse respeito, no Norie, o levantamento dos trabalhos realizados desemboca num volume de aproximadamente 250 dissertações e 50 teses produzidas nesses 35 anos de história.

Vale lembrar que, atualmente, o núcleo exige dedicação integral dos alunos no desenvolvimento de mestrados e doutorados. A escolha dos temas é baseada nos três grandes eixos que norteiam o grupo: novos materiais, sustentabilidade e gestão. Assuntos que se conectem a essas macrodivisões também são aceitos.

"Cada uma dessas áreas conta com dois ou três profissionais que dão a linha dos trabalhos", explica o professor Bonin. "Na área de materiais, o aluno tem mais liberdade para escolher o foco do seu estudo. Já nas áreas de sustentabilidade e gestão, há um projeto principal, e os demais vão se agregando a ele - isso para que a influência do trabalho sobre o meio de produção seja maior", conclui, reforçando o alinhamento do Norie à prática das empresas.

 

Raio X do núcleo
Como o Norie é dividido, onde atua e em quais linhas de pesquisa

Além das dissertações de mestrado e doutorado, o Norie desenvolve projetos de pesquisa com recursos de agências de fomento públicas (CNPq, Fapergs, Finep etc.) ou por meio de parcerias com empresas privadas. As atividades são organizadas em grupos de pesquisa, que reúnem professores, pesquisadores e alunos segundo os temas investigados:

Grupo de gerenciamento e economia da construção
n Aprendizagem organizacional na construção civil
n
Gestão da produção na construção civil
n
Gestão do processo de desenvolvimento do produto

Grupo de edificações e comunidades sustentáveis
n Conforto do ambiente construído
a) Desempenho térmico de edificações
b) Climatologia do ambiente construído
c) Acústica urbana e de edificações

n Edificações e comunidades sustentáveis
a) Arquitetura bioclimática
b) Conservação de energia em edificações
c) Gerenciamento de resíduos sólidos e líquidos
d) Comunidades urbanas e rurais sustentáveis
e) Fontes sustentáveis de energia para o meio urbano e rural
f) Projetos regenerativos e sustentabilidade
g) Comunidades rurais e urbanas sustentáveis
h) Água, energia, reciclagem de resíduos urbanos e sua integração com a produção rural

n Percepção ambiental
a) Efeitos da presença da vegetação na qualidade de vida do ser humano
b) Uso da vegetação na melhoria do conforto de edificações urbanas e rurais
c) Melhoria da qualidade dos pátios escolares e instituições asilares
d) Paisagismo
e) Avaliação da pós-ocupação do entorno das edificações
f) Importância da presença de vegetação nos pátios das escolas e pré-escolas
g) Conforto ambiental junto a edificações
h) Planejamento de espaços abertos junto a instituições para idosos
i) Paisagismo sustentável

Grupo de tecnologia de materiais e sistemas construtivos
n Tecnologia do concreto e de argamassas convencionais e de alto desempenho
n Blocos cerâmicos
n
Desenvolvimento, utilização e análise do comportamento de novos materiais, com ênfase em aspectos ambientais de uso de resíduos
n Tecnologia dos revestimentos cerâmicos

 

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