Quantitativos em 3D | Construção Mercado

Entrevista

Quantitativos em 3D

Modelos de projetos tridimensionais servem de ferramenta para reduzir um dos grandes problemas da elaboração de orçamentos: a quantificação dos materiais

Por Bruno Loturco
Edição 113 - Dezembro/2010

Acervo pessoal
PEDRO ANTONIO LOUSAN BADRA
Engenheiro civil formado pela Universidade Mackenzie em 1967, trabalhou inicialmente como engenheiro de obras e diretor de construtora; especializou-se na área de gestão de empresas de construção. Em 1984, fundou o SBD (Sistema Badra de Dados & Associados, escritório do qual é diretor até hoje) para prestar consultoria em elaboração de orçamentos de obras com uso da informática. Na década de 1990, foi coordenador e diretor da divisão de informática do Instituto de Engenharia. Atualmente, é um dos principais defensores do uso do BIM (Build Information Modeling, sistema em que o levantamento de quantidade é feito com base em desenhos tridimensionais) no Brasil.

Já há vários sistemas utilizados por construtoras para os orçamentistas elaborarem a planilha de custos. O que o BIM teria de diferente?
As maiores distorções de orçamento não são erros de orçamentação, de cálculo de valores ou de pesquisa. O problema maior está na quantificação, a tradução do projeto que chega na construtora em quantidade de material que será necessário à obra. Para quantificar, é preciso somar o conhecimento do projeto com o da arte da engenharia, ter uma visão tridimensional. Muitos profissionais tiveram contato com esses conceitos nas faculdades, mas isso acaba se perdendo.

Por quê?
Por falha de conhecimento, deficiência na formação ou pouco uso desses conceitos no dia a dia do trabalho. Até hoje, há construtora que levanta as quantidades abrindo a planta e usando o escalímetro para calcular as dimensões da edificação. É um sistema manual! Os orçamentos ficam com imprecisões de medição, de escala, de detalhamento.

Mas muitas empresas já usam projetos em CAD.
A entrada do CAD e a evolução das planilhas melhoraram a precisão. Saiu o escalímetro e entrou a leitura eletrônica. A melhoria de tempo foi de uns 30% e a precisão ficou em torno de 80%. O problema é que a leitura em CAD é em duas dimensões, largura e profundidade. A terceira dimensão, a altura, é só uma indicação. Fica a critério da interpretação de cada levantador.

O BIM eliminaria isso?
Ele soma o desenho em 3D ao quantitativo. O que se desenha é o que se levanta. O programa já faz eletronicamente todo o levantamento de quantidade. A precisão sobe para 95% e o tempo de quantificação baixa em 80%.

Para esse fluxo de informações funcionar, qual o nível de organização necessário?
Muito grande. Mas não é só da construtora, é também de todos os projetistas envolvidos na obra, que precisam entregar informações detalhadas. Projetos devem ser todos em DWG, o sistema de cotação precisa ser online, o pessoal de compras tem importância na informação que levanta sobre os produtos. O arquiteto se torna figura essencial. Ele precisa produzir projetos detalhados e compatíveis com o sistema de quantificação, e passa a fazer a compatibilização de todos os sistemas.

Onde o orçamentista entra no processo?
Muita construtora usa um profissional barato, sem experiência, para fazer o orçamento, como se fosse apenas fazer contas. É um erro em qualquer circunstância, mas fica ainda mais claro com a quantificação tridimensional. O orçamentista tem elementos para ver a edificação com detalhes e pode, a partir disso, propor alternativas para reduzir os custos. E só faz isso quem tem experiência de obra.

Esse modelo permite adaptações para a realidade de cada empresa?
É fundamental a construtora colocar o sistema de quantificação dentro de seus padrões. O canteiro de obras passa para o departamento de orçamentação quais os níveis de consumo praticados no canteiro para cada sistema construtivo. Juntando as informações dos diversos canteiros, é possível montar um sistema de composição unitário da empresa.

A economia fica em que nível?
Na quantificação, pode chegar a 20%.

Há resistência à implantação?
Há desconhecimento em alguns casos. Muitas construtoras fazem quantificação com CAD e Excel. Como há programas de computador envolvidos no processo, já acham que o orçamento está informatizado. Mas acabam esquecendo de informatizar o levantamento de quantidade.

Qual é o próximo estágio desse processo?
Já existe lá fora, mas ainda não chegou ao Brasil: o BIM para instalações. É o segundo passo da evolução, para toda a obra estar virtual antes de se tornar real. Você trabalha mais no planejamento para ter bem menos problema na execução.

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