Arquiteto espanhol fala de sua experiência no mercado brasileiro e da interface entre escritórios de arquitetura e incorporadoras | Construção Mercado

Entrevista

Fermín Vázquez

Arquiteto espanhol fala de sua experiência no mercado brasileiro e da interface entre escritórios de arquitetura e incorporadoras

Valentina Figuerola
Edição 148 - Novembro/2013

'A arquitetura é um instrumento para fazer edifícios e cidades melhores, obter mais com menos e, ao contrário do que se acredita, de reduzir custos'

Acervo pessoal

A requalificação do Cais Mauá, em Porto Alegre (RS), é, sem dúvida, o projeto mais conhecido do arquiteto espanhol Fermín Vázquez no Brasil. Feito em parceria com o escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados, a intervenção pretende combater a atual obsolescência urbana em que se encontra a ex-zona portuária da capital gaúcha. Foi esse trabalho, iniciado há seis anos, que trouxe Vázquez ao Brasil. As encomendas crescentes de projetos acabaram por firmar, em 2011, em São Paulo, o b720, escritório fundado e chefiado pelo espanhol, cujo trabalho está associado a projetos urbanísticos de grande escala. Dentre eles, um bairro sustentável de 350 ha próximo a Vicente Pires, em Brasília, onde habitarão cerca de 70 mil pessoas. Propriedade da família Dutra Vaz, com incorporação da Brookfield, o "projeto muito ambicioso", nas palavras de Vázquez, deverá ser concluído em dez anos. Além de criar bairros planejados, o arquiteto espanhol também projeta edifícios residenciais, como o Sage, da incorporadora Ideia!Zarvos, situado na Vila Ipojuca, Zona Oeste de São Paulo, cuja entrega está prevista para 2016.

Vázquez é mundialmente conhecido por projetos capazes de transformar o entorno em que se situam, como a geometricamente complexa Torre Realia, feita em parceria com o japonês Toyo Ito, em Barcelona, e a polêmica Torre Agbar, feita em conjunto com o francês Jean Nouvel, também situada na capital da Catalunha. Outros projetos significativos do arquiteto são o Aeroporto de Lleida, a praça Torico de Teruel, o Centro de Convenções La Mola, o Casino de Lloret Del Mar, a Ciudad de La Justicia e o edifício Copa America, feito juntamente com o britânico David Chipperfield.

Conte um pouco de sua história com o Brasil. Quando começou a atuar aqui e em que projetos está envolvido?
Começamos a trabalhar no Brasil há pouco mais de seis anos. Em função de nossa experiência com projetos relacionados a frentes portuárias, na Espanha, nos convidaram para participar de um concurso para a revitalização do Cais Mauá, em Porto Alegre (RS). Foi por meio deste projeto que descobrimos profissionalmente o Brasil, o que, para nós, foi um grande êxito. Desde que ganhamos o concurso, começaram a surgir muitos trabalhos e passamos a trabalhar intensamente no Brasil, razão pela qual decidimos estabelecer em São Paulo nosso escritório. Neste momento, estamos trabalhando em três empreendimentos: um em Campinas (SP), outro em São José do Rio Preto (SP) e um grande bairro sustentável em Brasília (DF). Temos também muitos trabalhos que estão em fase preliminar de projeto.

Em que fase está o Cais Mauá?
As obras ainda não começaram, mas estão a ponto de começar. Já foram emitidos os alvarás para as demolições e, até onde eu sei, os alvarás para a transformação dos armazéns, construção e reforma do espaço público estão a ponto de serem emitidos. Os projetos executivos estão todos prontos e a obra começará em semanas, o que para nós é um momento emocionante, pois acreditamos que em poucos meses o projeto se tornará realidade.

A atuação de seu escritório no Brasil tem sempre foco urbanístico ou você está fazendo torres residenciais e comerciais também?
A realidade é que fazemos as duas coisas, desde urbanismo a prédios residenciais e comerciais. Outro dia, aliás, comecei a falar publicamente do nosso primeiro projeto para Idea!Zarvos (incorporadora), uma torre residencial situada na Vila Ipojuca, Zona Oeste de São Paulo, que será lançada nos próximos meses. A entrega está prevista para o fim de 2016.

A arquitetura dos empreendimentos da Idea!Zarvos foge do convencional no mercado imobiliário de São Paulo, onde muitas incorporadoras abusam do estilo neoclássico que se reproduz massivamente na cidade, caracterizando, sobretudo, os edifícios residenciais. Qual a sua opinião sobre isso? A arquitetura residencial no Brasil precisa melhorar?
Acredito que isso seja decorrência de uma forte demanda, que leva a uma menor preocupação com a qualidade do projeto, do desenho. O mesmo também aconteceu na Espanha. Mas, pouco a pouco, os brasileiros se darão conta de que a arquitetura é um instrumento para fazer edifícios e cidades melhores, obter mais com menos e, ao contrário do que se acredita, de reduzir custos. Por isso, estou seguro de que, no futuro, haverá uma demanda por uma arquitetura mais cuidada. Felizmente, o Brasil tem uma fantástica tradição de boa arquitetura, que foi uma das mais influentes do movimento moderno, com as interpretações mais originais do estilo.

No Brasil, os arquitetos se queixam de que os incorporadores impõem prazos excessivamente apertados e limitam um pouco a capacidade criativa dos escritórios. Você sentiu essa dificuldade?
Isso não é um problema só do Brasil, mas universal. Os projetos dispõem de cada vez menos tempo e recursos para serem feitos, o que reduz o tempo com pesquisas e estudos. Isso leva ao uso de fórmulas repetidas que implicam na perda de oportunidades. Quando eu era pequeno, meu pai dizia: "É melhor pensar antes de fazer". Acredito que isso se aplica a tudo na vida, inclusive aos projetos. Mas a verdade é que este equilíbrio é sempre difícil...

E como é a relação dos arquitetos e incorporadoras na Espanha?
Na Espanha, há uma pequena diferença, já que os arquitetos também atuam como engenheiros da edificação, sendo responsáveis por todos os aspectos do projeto, da parte construtiva até a parte estrutural, e também dos aspectos econômicos. Essa maior responsabilidade outorga ao arquiteto uma maior capacidade de controle sobre resultado final. Mas, tanto na Espanha quanto no Brasil, as coisas são parecidas no sentido em que os arquitetos têm que resolver problemas, ajudar seus clientes e ainda criar boas soluções para a cidade e sociedade, fazendo coisas interessantes para eles mesmos e, portanto, para o mundo. Aqui no Brasil, no entanto, tarefas estão mais divididas entre engenheiros, arquitetos e construtoras, que aqui no Brasil normalmente dependem menos dos arquitetos.

'Os projetos dispõem de cada vez menos tempo e recursos para serem feitos, o que reduz o tempo com pesquisas e estudos'

Que cicatrizes deixou a "bolha imobiliária" em seu país? Como está o mercado de construção espanhol hoje?
Foi uma ferida profunda que deixou muitas cicatrizes, mas a recuperação já começou. Há mais trabalho na Espanha e Europa hoje do que havia há alguns anos. Outro sintoma claro da melhora na Espanha é o aumento de investimento estrangeiro, sobretudo, no setor imobiliário. Muitos fundos estrangeiros e, inclusive, compradores privados estão começando a investir fortemente na carteira imobiliária de muitas entidades financeiras e privadas.

Seu escritório trabalha com o BIM? O que acha dessa ferramenta?
Sim, usamos o BIM, mas também trabalhamos de uma maneira mais convencional em função das necessidades do nosso cliente. Acredito que o BIM não é imprescindível, apesar de sua utilidade. Mais importante do que esta ferramenta é ter muito bem planejados e estudados os trabalhos, sistemas construtivos e os custos das fases de execução. É claro que o BIM também acaba sendo útil para todas essas coisas, desde que a indústria esteja preparada a usá-lo.


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