Instalação de elevadores em empreendimentos da faixa 1 do "Minha Casa, Minha Vida" ampliaria a viabilidade do programa habitacional em grandes cidades. Mas esse custo cabe nos orçamentos? | Construção Mercado

Construção

Elevador popular

Instalação de elevadores em empreendimentos da faixa 1 do "Minha Casa, Minha Vida" ampliaria a viabilidade do programa habitacional em grandes cidades. Mas esse custo cabe nos orçamentos?

Por Rodnei Corsini
Edição 148 - Novembro/2013

A segunda fase do programa "Minha Casa, Minha Vida", iniciado em 2011, passou a ter como uma das novas regras a necessidade de adaptabilidade para todos os empreendimentos. Isso significa que se passou a exigir que todos os empreendimentos voltados a moradores com renda familiar de até R$ 1,6 mil (faixa 1 do programa) sejam adaptáveis à acessibilidade. Essa exigência implica, entre outros requisitos, que sejam asseguradas condições de acesso universal em espaços públicos, de uso comum e internos da unidade habitacional. Prédios com três pavimentos ou mais precisam ainda ter condições para, no mínimo, uma futura instalação de elevadores. Nos edifícios em que já não estejam instalados elevadores, pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida são direcionadas para as unidades do pavimento térreo.

A assessoria de comunicação do Ministério das Cidades afirmou em nota que o MCMV 2 passou a destinar no mínimo 3% das unidades habitacionais adaptadas para moradores com alguma deficiência de mobilidade. Para isso, o programa adotou o conceito de "residência adaptável", em que o projeto da construção deve viabilizar a adoção de recursos específicos de acessibilidade caso seja necessário (além do elevador, é preciso, por exemplo, permitir a futura instalação de barras). As especificações mínimas para todas as unidades do programa são: portas com vãos acessíveis ao usuário de cadeira de rodas (largura mínima de 80 cm), piso com desnível máximo de 15 mm, metragem quadrada dos cômodos que possibilite o giro de 180° de cadeira de rodas (definido pela norma ABNT NBR 9050), além de haver a previsão de área de transferência ao vaso sanitário e ao boxe nos banheiros.

Segundo o Ministério das Cidades, é possível instalar elevadores nas áreas centrais verticalizadas do programa MCMV, desde que comprovado "o beneficio para implantação do equipamento". "Nesse caso, o elevador deve ser 'antivandalismo', incluindo na contratação a manutenção por cinco anos e um trabalho social diferenciado para as famílias", completa a nota do Ministério. Esse trabalho social implica em orientar os moradores do empreendimento, por meio da gestão do condomínio, a cuidar da manutenção do elevador. A necessidade de conscientização está baseada na ideia de que elevadores em habitações populares sofrem danos mais constantemente e não costumam passar pela manutenção regular necessária.

Não há hoje, no país, nenhum empreendimento da faixa 1 do MCMV que já tenha elevador instalado. A assessoria de imprensa da Caixa Econômica Federal informou que, na faixa 1 do programa "Minha Casa, Minha Vida", até o dia 15 de agosto haviam sido entregues 353.940 unidades habitacionais e 957.214 estavam em fase de obras. Isso totaliza 1.311.154 unidades contratadas na faixa de até R$ 1,6 mil mensais por família. As dificuldades apresentadas por profissionais para a instalação dos elevadores na faixa 1 do programa estão no custo de instalação e de manutenção do sistema.

Foto: Marcelo Scandaroli
Do ponto de vista técnico, a viabilidade econômica do uso de elevadores no MCMV depende de fatores de projeto, como forma de aglomeração das unidades e esquemas de corredores, segundo o arquiteto Demetre Anastassakis

Custos altos
O problema da instalação de elevadores nos empreendimentos da faixa 1 do programa MCMV é, primeiramente, o preço do elevador. A faixa 1, em especial, tem uma pressão muito grande de custo, segundo afirma Carlos Borges, vice-presidente de tecnologia e qualidade do Secovi-SP (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo). O outro problema central são as dificuldades alegadas para viabilizar a manutenção do sistema pelo condomínio. "Se você construir quatro andares sem elevador, portanto, é melhor. Mas, como você tem essa questão da acessibilidade - que, teoricamente, é obrigatória para todos - a alternativa pode ser a instalação de um elevador plataforma para ser usado somente por pessoas com necessidades especiais. Ele é mais barato", diz Borges. Mas ele lembra, também, que é comum que elevadores de plataforma também demandam cuidados e assistência e, por ser usado com menos frequência, está mais sujeito ao descuido da falta de manutenção.

Como a legislação do MCMV exige, para a totalidade do edifício, que ele esteja em condições adaptáveis e não que ele seja todo adaptado, a instalação imediata do elevador tem sido dispensada - desde que seja garantida sua possível instalação posterior. "No Paraná, temos empreendimentos da faixa 1 do MCMV de até quatro pavimentos, nos quais deixamos um espaço com possibilidade de acomodar o elevador", diz Waldemar Trotta Junior, vice-presidente financeiro do Sinduscon-PR. Trotta Junior afirma ainda que o preço pago pelas unidades não cobriria os custos. "Em Curitiba, o preço pago é de R$ 64 mil. A conta não fecha. Coloca-se a caixa para o elevador para, depois, os proprietários instalarem o elevador por conta própria, caso seja necessário", diz.


Divulgação

'Para poucos andares, a alternativa pode ser a instalação de um elevador plataforma para ser usado somente por pessoas com necessidades especiais. É mais barato, mas está mais sujeito ao descuido da falta de manutenção'
Carlos Borges, vice-presidente de tecnologia e qualidade do Secovi-SP

Foto: Marcelo Scandaroli
O baixo custo do terreno é fator fundamental para a viabilidade das habitações populares; por isso, muitos empreendimentos são construídos longe dos grandes centros, o que espraia as cidades e aumenta os custos de infraestrutura urbana pública

Segundo o vice-presidente financeiro do Sinduscon-PR, a conta com elevador não fecharia nesse preço, mesmo que não houvesse custo do terreno. Ele também aponta o problema do aumento do custo do condomínio para os moradores. "E nem sempre a conta do condomínio pode ser suportada pelos moradores nessa faixa de renda. Temos escutado que o grau de inadimplência é grande e, se um sistema de elevadores não tiver manutenção, podem ocorrer problemas."

Para o arquiteto Demetre Anastassakis, do escritório Autografics Arquitetura e Planejamento, o custo de investimento dos elevadores nas obras tem se mostrado sempre menor que o uso extensivo do solo e as infraestruturas que advêm disto. "Isso quer dizer que a cota de elevador por unidade é sempre menor que o sistema viário, a drenagem, o sistema de esgotamento e de abastecimento d'água, energia elétrica, condominiais ou públicos de moradias dispersas, espalhadas pelo terreno", diz. "Não computamos aqui preço da terra, pois que os conjuntos mais 'espraiados' usam maiores áreas de terras mais baratas, enquanto que os prédios dotados de elevadores usam menores áreas como fração ideal por unidade, de terrenos mais caros", completa.

Se considerada toda a estrutura urbana, portanto, o uso do elevador também se justifica economicamente para o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), João Meyer. "O elevador é caro, mas se for ver o que ele permite fazer no projeto ele sai barato." Segundo Meyer, para conjuntos de prédios com elevadores o custo de urbanização compensa o custo do elevador. Então, só no custo de obra ele se equilibra. "Como em política habitacional a terra geralmente é doada, ela não é computada nos custos - por isso, essa grande vantagem do elevador pode não aparecer." Ele argumenta ainda que nas grandes metrópoles o maior complicador para a habitação atualmente não é a construção, mas a disponibilidade de terrenos.


PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>
Destaques da Loja Pini
Aplicativos