Sistemas industrializados de concreto | Construção Mercado

Debates Técnicos

Sistemas industrializados de concreto

Conquistar espaço em novos segmentos, como o residencial, e garantir o controle rigoroso da qualidade das peças produzidas são desafios para os fabricantes

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 149 - Dezembro/2013

 

Marcelo Scandaroli

A construção industrial, de condomínios logísticos e centros de distribuição segue como o grande consumidor de pré-moldados de concreto. A explicação para isso está em vantagens como menor demanda por mão de obra, menor prazo de execução e controle tecnológico mais apurado, que induzem o uso do sistema nesses segmentos. Mas para que esses benefícios se concretizem é imprescindível garantir um rigoroso controle de qualidade no processo de produção das peças, seja quando isso acontece na indústria ou no próprio canteiro.

"Diferentemente das construções moldadas in loco, a estrutura pré-moldada passa por situações transitórias ao ser produzida em um local e transportada para outro. Portanto, está suscetível às movimentações", explica a engenheira Iria Doniak, presidente- executiva da Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto (Abcic). "Se em uma estrutura convencional o controle de qualidade adequado é importante para evitar patologias, com os pré-fabricados ele se torna fundamental, também por conta das etapas de transporte e manuseio", completa.

A qualidade dos produtos, tanto do pré-fabricado produzido em unidade fabril, quanto do pré-moldado, está atrelada ao atendimento aos requistos estabelecidos pela ABNT NBR 9.062 -Projeto e Execução de Estruturas de Concreto Pré-moldado.

Na hora da contratação, o construtor deve checar se o fornecedor possui laboratórios próprios dentro de sua unidade industrial e se é aderente a programas de qualidade. Como a pré-fabricação pressupõe a movimentação de elementos em baixa idade, o controle das resistências iniciais do concreto é fundamental. Já no caso de peças protendidas, a própria NBR 9.062 preconiza que a liberação da protensão só deverá ocorrer após o concreto ter atingido a resistência mínima de 21 MPa.

Caso a opção do construtor seja criar uma unidade de pré-moldagem, é recomendável, ainda, dispor de fiscalização externa no local de produção. De modo geral, é consenso entre os especialistas que as fábricas credenciadas oferecem mais condições de garantir controle de qualidade das peças.

 

ENTREVISTA - PAULO EDUARDO FONSECA DE CAMPOS

Incentivo e qualidade

'Há um esforço do Governo Federal para incentivar o uso de construção racionalizada e de sistemas inovadores em programas de escala massiva como o Minha Casa, Minha Vida. Por outro lado, não há empenho em desonerar o setor'
Paulo Eduardo Fonseca de Campos, professor-doutor do Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU /USP) e superintendente do Comitê Brasileiro de Construção Civil (CB-02) da ABNT

O uso de pré-moldados tem sido incentivado na construção civil brasileira?
Não. Ainda há equívocos sérios do ponto de vista tributário. Em geral, as fábricas têm condições mais adequadas para a produção das peças, mas são penalizadas por um regime tributário injusto que favorece a produção artesanal.

Isso dificulta a penetração do sistema em outros segmentos, como o residencial para a média e baixa renda?
Há um esforço do Governo Federal para incentivar o uso de construção racionalizada e de sistemas inovadores em programas de escala massiva como o Minha Casa, Minha Vida. Por outro lado, não há empenho em desonerar o setor. Essa contradição precisa ser resolvida para que o sistema fabricado pela indústria possa se tornar mais competitivo.

Quais são os problemas mais comuns envolvendo a produção de peças dentro do canteiro de obra?
Os erros que se cometem no canteiro são os mesmos que podem ser cometidos nas fábricas, como a falta de controle dimensional, homogeneidade, variabilidade de resistência do concreto, imperfeições ocorridas no momento do lançamento do concreto e do controle de cobrimento de armadura. Outro cuidado importante é garantir a segurança na operação da instalação para fazer peças protendidas.

Esses erros são recorrentes?
Falhas na produção das peças costumam ser casos raros e isolados, mas quando acontecem, são de difícil correção. Já fui chamado para atender a um caso de correção em um prédio que iria receber maquinários caríssimos, executado com pré-fabricados, que em função de falhas de projeto e execução estava com problemas sérios de infiltrações de água pelas juntas dos painéis. Isso ocorreu porque a empresa envolvida não era qualificada. Mas felizmente o setor está maduro e empenhado em retirar do mercado quem não faz direito.

Como o senhor vê o aproveitamento do Building Information Modeling (BIM) pela construção com pré-moldados?
Se o BIM é utilizado com sucesso na construção tradicional, a utilização com pré-moldado é ainda mais vantajosa. É como se montássemos uma usina virtual no computador. Com isso, projetar se torna mais fácil.

 

Patologias e correções
Na lista das principais causas de imperfeições envolvendo pré-moldados de concreto figuram variações dimensionais, de textura, nivelamento e estética de superfície; variações da cor; fissuras; fendas; desvio de curvatura e falhas de concretagem. Em geral, tais problemas ocorrem por deficiências de projeto, falhas na execução ou uso inadequado da estrutura pós-ocupação. No caso dos pré-fabricados, também podem acontecer nas fases de manuseio, transporte, armazenamento e montagem.

Para evitar patologias, a produção deve seguir à risca os requisitos normativos. Além de garantir a integridade estrutural (qualidade do concreto e do aço) e a resistência e módulo de elasticidade do concreto conforme estabelecido em projeto, o processo de fabricação deve assegurar os cobrimentos mínimos e considerar a classe de agressividade do meio onde a estrutura será instalada.

Outro ponto importante é certificar-se de que os aspectos dimensionais atendam as tabelas de tolerâncias da NBR 9.062 para produção e montagem. "Se estiverem fora das tolerâncias estabelecidas no texto, só será possível montar as peças caso sejam retrabalhadas ou substituídas, o que representará custos adicionais", explica a presidente da Abcic.

Imperfeições dessa natureza devem ser avaliadas por profissionais qualificados e podem exigir desde simples reparos até a recuperação estrutural ou o descarte da peça. "Cada caso é um caso. Uma variação de coloração num elemento que não ficará aparente pode ser aceita, mas se for numa fachada, possivelmente exigirá substituição. Já uma falha de concretagem pode ser reparada desde que seja superficial", observa Doniak.

 

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