Variação cambial aumenta incertezas quanto ao retorno do investimento estrangeiro no setor imobiliário brasileiro. Mas não é suficiente para reduzir a rentabilidade no longo prazo | Construção Mercado

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Variação cambial aumenta incertezas quanto ao retorno do investimento estrangeiro no setor imobiliário brasileiro. Mas não é suficiente para reduzir a rentabilidade no longo prazo

Por Bruno de Vizia
Edição 150 - Janeiro/2014
 
Foto: Robert S/Shutterstock

Com a abertura de capital das empresas de real estate a partir de meados da década passada, o mercado imobiliário brasileiro acostumou-se a receber investimentos estrangeiros. Isso vem acontecendo não só por meio da compra de ações em Bolsa, mas também pela participação em empresas do setor, inclusive construtoras de pequeno e médio porte. Para o investidor do exterior, além da perspectiva de crescimento da economia e do setor, há um fator de grande impacto para a tomada de decisão: a taxa de câmbio.

Em 2010, 2011, e até a metade de 2012, a taxa de câmbio do real frente ao dólar oscilou na faixa entre R$ 1,55 e R$ 1,85. Entretanto, a partir de meados de 2012, o patamar mudou para algo em torno de R$ 2,00. Desde o início de 2013 a desvalorização do real é crescente, com a moeda brasileira oscilando mais próximo da faixa de R$ 2,30. A mudança, entre 2010 e 2013, significa variação cambial acima de 30%.

"Vamos supor que alguém entrou no Brasil a um câmbio médio de R$ 1,70, aplicou US$ 100, ganhou 25% ao ano, e ficou aqui cinco anos. Se tivesse feito seu investimento em reais, teria ganhado 205%. Se tivesse feito em dólares na mesma época, e saído a R$ 2,30, o ganho dele seria de 33%. Ou seja, praticamente todo o ganho se perderia no câmbio", exemplifica Marcelo Santos, vice-presidente da Cushman & Wakefield.

É natural que uma variação cambial de tal magnitude desestimule a aplicação e a manutenção de recursos estrangeiros no País. João Alberto Vendramini, vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece), explica que os fundos estruturaram vários negócios e fizeram suas equações financeiras, vislumbrando o retorno do investimento com o dólar a um patamar entre R$ 1,90 e R$ 2,00. "Na hora em que o dólar subiu, o investimento ficou mais alto e a equação começou a não fechar." A partir disso, completa Vendramini, "percebemos que estes fundos começaram a andar de lado, postergaram o investimento, aguardando para perceber em qual nível o dólar vai se estabilizar e avaliar se ainda é interessante realizar o negócio". De acordo com o vice-presidente da Abece, esse momento de avaliação do impacto da variação cambial não fica restrito apenas ao segmento imobiliário, mas também acontece com algumas indústrias que tinham plano de expansão no Brasil.

Estabilidade
Relatório divulgado no início de novembro pela Conferência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) mostra que o Brasil recebeu US$ 30 bilhões em Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) no primeiro semestre de 2013, o que representa um crescimento de 1% em relação ao mesmo período de 2012.


VARIAÇÃO CAMBIAL (REAL X DÓLAR PTAX)

"Os fluxos de IED para o Brasil permaneceram estáveis, apesar da queda de 22% no volume de investimentos produtivos, resultante da diminuição nas fusões e aquisições e também da redução dos investimentos ligados exclusivamente às atividades de produção", afirma o relatório Monitor de Tendências do Investimento Mundial, da Unctad. O Brasil caiu para a oitava posição na lista de países que mais recebem investimentos estrangeiros diretos no mundo, tendo encerrado 2012 na quarta colocação, segundo o relatório.

"O Brasil já deixou de ser a menina dos olhos do mundo em termos de investimento. Quem está no País são aqueles investidores que realmente conhecem o Brasil desde a época das vacas magras, quando não tínhamos reservas astronômicas de US$ 380 bilhões", afirma Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Trevisan Corretora.

Para Galhardo, houve um grande aporte de recursos para o segmento, "principalmente quando as empresas de construção se abriram para o mercado, e os investidores estrangeiros entraram maciçamente". Segundo ele, a expectativa é a de que não se repita o mesmo desempenho de 2009, quando o dólar estava baixo, e a possibilidade de ganhos era muito alta.

Alguns analistas apontam segmentos mais sensíveis à variação cambial dentro da indústria da construção. Um deles é o setor de empreendimentos empresariais de locação, revela Hélio Abreu, diretor financeiro da Associação para o Desenvolvimento Imobiliário e Turístico do Brasil (Adit). Segundo Vendramini, da Abece, também nos negócios realizados no segmento de logística, houve turbulências. Os negócios calcados em capital estrangeiro foram postergados. Já nos casos em que o capital é nacional, os fundos mantiveram seus investimentos


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