Depois das grandes. Com a saída das incorporadoras de capital aberto, a expectativa é de retomada de negociações e de espaço para as construtoras locais, no entanto, estes mercados ainda sofrem com a inflação dos preços imposta pelas grandes | Construção Mercado

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Fim da regionalização

Depois das grandes. Com a saída das incorporadoras de capital aberto, a expectativa é de retomada de negociações e de espaço para as construtoras locais, no entanto, estes mercados ainda sofrem com a inflação dos preços imposta pelas grandes

Por Aline Mariane
Edição 151 - Fevereiro/2014

 

Liquidação de imóveis em Goiânia

3ddocK/Shutterstock

A saída das grandes incorporadoras da cidade de Goiânia tem deixado para trás um rastro de promoções e liquidação de imóveis com descontos de 20% a 40%. Essa atitude, segundo as empresas locais, prejudicou o mercado. "Como as incorporadoras de capital aberto não tiveram sucesso e não tinham projetos futuros, liquidaram os estoques com preços ridículos, que atrapalharam o mercado local", afirma João Gabriel Tomé, incorporador da City Soluções Urbanas. Para Marcelo Moreira, da CMO Construtora, estas grandes incorporadoras que estão liquidando os imóveis prontos para poder sair da região não estão se preocupando com a imagem da marca nem respeitando seus compradores. "O problema é que estão saindo do mercado e pouco importa se vão ficar com uma imagem de empresa que queimou o estoque, deu desconto alto e não quer manter a credibilidade de preço no mercado. Não faço isso porque é desrespeito com o cliente que vai continuar com o produto", define.

A City Soluções Urbanas teve de se desfazer de um de seus terrenos em Goiânia por conta da queda de preços provocada pelas liquidações das grandes incorporadoras. "Os preços pelos quais essas empresas liquidaram estoques desregularam o valor do metro quadrado na região", aponta Tomé.

Conforme assinala, o superdimensionamento de empreendimentos levou ao encalhe de unidades. "Então fizeram promoção. Baixou tanto o preço do metro quadrado que vai demorar cinco ou dez anos para retomar o patamar devido. Vendemos nosso terreno porque não queremos ficar com landbank de cinco ou dez anos", relata.

 

Divulgação: City Urbanas

"Os preços pelos quais essas empresas liquidaram estoques desregularam o valor do metro quadrado na região"
João Gabriel Tomé
incorporador da City Soluções Urbanas, de Goiás.

Também no momento de vender os imóveis o comportamento das grandes incorporadoras era diferente do costumeiro nos mercados imobiliários regionais. De acordo com Adalberto Junior, vice-presidente da Indústria Imobiliária do Sindicato da Indústria da Construção do Distrito Federal (Sinduscon-DF), os produtos estavam sendo vendidos com sinais de entrada muito baixos e planos de pagamento muito longos, muitas vezes para clientes que não demonstravam capacidade financeira. "O reflexo disso nós vimos no ano de 2012, principalmente no segundo semestre, e no ano de 2013: uma oferta excessiva, causada por grande parte dos compradores que não conseguiram ficar com as unidades adquiridas, não conseguiram repassar pelo preço que imaginavam e estão fazendo distratos com as construtoras", destaca.

Mercado para quem fica
Após a saída de algumas grandes incorporadoras que foram atuar no mercado de Goiânia, a expectativa da CMO Construtora era de que os valores retornariam ao patamar normal. Porém, isso não tem acontecido. Conforme narra Marcelo Moreira, devido à necessidade de sempre apresentar altos volumes de vendas, as grandes empresas inflaram comissões e premiações dos corretores de imóveis. "Sempre trabalhamos com comissões em torno de 4% entre imobiliária e corretor, mais premiação em torno de 0,5%, como um incentivo pontual nas vendas - nunca se tratou de premiação contínua", afirma.

Divulgação: Queiroz Silveira

"Em 2012 elas lançaram bem menos e a gente conseguiu pegar uma boa fatia dos compradores"
Rogério Queiroz
incorporador da Queiroz Silveira, de Goiânia.

Com a chegada das grandes, esses valores foram alterados. "Houve casos em que a premiação chegou a 2% ou 3%. O problema é que, com a saída da empresa, o corretor fica com esse número na cabeça", completa. Por conta disso, atualmente a CMO teve que aumentar as porcentagens. Para comissões, já se fala em pagar 5%, ou seja, 1% a mais. A premiação foi de 0,5% para 1,5% - ou até 2%. "Isso foi um legado das grandes. Acabamos sacrificando a margem da incorporadora para poder adequar a equipe de venda. Essa foi uma mudança de mercado bem forte", ressalta Moreira.

A presença das grandes incorporadoras, por outro lado, também ajudou a promover avanços nas regiões onde entraram. Adalberto Junior, do Sinduscon-DF, acredita que, ao entrar no mercado de Brasília, elas levaram um modelo de negócio mais arrojado, moderno e com mais foco em publicidade. "De certa forma isso foi positivo, porque obrigou o nosso mercado a se adequar e estar preparado para esse novo modelo de negócio", afirma.

Segundo Leonardo Pissetti, em Curitiba a concepção de projetos mudou. "Antes a gente não tinha empreendimentos tipo clube, integrados com uma área de lazer bem desenvolvida", conta.

 

Divulgação: Swell
Para Leonardo Pissetti, da incorporadora curitibana Swell, condomínio-clube foi inovação trazida pelas grandes

 

Já em Minas Gerais, a entrada e posterior saída das grandes incorporadoras manteve as empresas locais no mesmo patamar - sem prejuízos, mas também sem crescimento por conta do boom imobiliário. "Com a saída delas não mudou nada. O que aconteceu foi que elas entraram no boom imobiliário e saíram. Ou seja, as empresas voltaram ao mesmo lugar que elas tinham antes do boom imobiliário", ressalta Lucas Guerra Martins, vice-presidente da área imobiliária do Sindicato da Indústria da Construção de Minas Gerais (Sinduscon-MG).

Para os mercados regionais que foram impactados negativamente, a saída das grandes é comemorada. "Em 2012 elas lançaram bem menos e a gente conseguiu pegar uma boa fatia dos compradores", destaca Rogério Queiroz, incorporador da Queiroz Silveira, de Goiânia.

 

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