Gruas | Construção Mercado

Debates Técnicos

Gruas

O mercado desses equipamentos cresceu no Brasil nos últimos anos. Mas garantir produtividade e segurança no uso ainda é um desafio a ser superado

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 151 - Fevereiro/2014
 

Marcelo Scandaroli

O uso de gruas (os chamados guindastes de torre) no Brasil deu um salto na segunda metade da década de 2000. A capitalização de muitas empresas sinalizou um caminho rumo à industrialização que culminou, inclusive, na falta de equipamentos na praça. Mas mesmo com o forte incremento, a presença das gruas nas obras brasileiras ainda é irrisória. Atualmente, aproximadamente 1,3 mil equipamentos estão em operação, contra as 2,5 mil máquinas existentes em Portugal. Só na China existem, hoje, cerca de 250 fabricantes de gruas. "Ainda permanece o mito de que o não uso do equipamento está associado ao baixo custo da mão de obra brasileira, o que não é verdade. Na China, a mão de obra é mais barata e a utilização de gruas, massiva", compara Paulo Melo Alves de Carvalho, diretor do segmento de gruas da Associação Brasileira das Empresas Locadoras de Bens Móveis e Atividades Correlatas (Alec) e diretor da Locabens, lembrando que o setor praticamente manteve- se estagnado em 2013.

Mas a julgar pelos lançamentos anunciados no último trimestre de 2013 e os previstos para o primeiro semestre de 2014, o setor de gruas tende a avançar novamente. Segundo os fabricantes, o maior temor dos construtores - a possibilidade de faltar equipamentos - está descartado. "No começo da década, contávamos com dez ou 15 empresas de locação de gruas. Hoje, são quase 50 players. A oferta é muito maior e, mesmo com volume grande de lançamentos, o mercado está acomodado e não faltarão equipamentos. Também temos uma condição cambial mais favorável, estímulo à importação e até alguns fabricantes grandes querendo fabricar localmente", conta Carvalho.

Além da chegada de novas empresas, outra novidade, especialmente para quem constrói na cidade de São Paulo, é a legislação que limita o uso do espaço aéreo. De acordo com a Portaria 005 de 2010, válida para o município de São Paulo, o equipamento não pode avançar mais do que 10 m do espaço público. Caso o faça, seu uso ficará condicionado à expedição prévia de um alvará de autorização via on-line. A limitação tem favorecido a oferta de maior variedade de equipamentos, como as minigruas, ainda não normatizadas, e as gruas articuladas (veja debate).

 

foto Marcos Lima
'A presença da grua tem se tornado cada vez mais comum em obras grandes e rápidas, com grande volume de peças industrializadas. Os prédios estão ficando cada vez mais altos, com grandes distâncias verticais a serem vencidas'
Ubiraci Espinelli Lemes de Souza

diretor da Produtime Gestão e Tecnologia e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).

ENTREVISTA Ubiraci Espinelli Lemes de Souza

Garantia de produtividade

Que condicionantes técnicas justificam o uso de gruas nos canteiros?
O uso do equipamento pode ser obrigatório em um canteiro dependendo do sistema construtivo eleito para executar o empreendimento, ou ser uma opção para aumentar a produtividade. Por viabilidade técnica, alguns materiais, como painéis prémoldados de fachadas, por exemplo, exigem gruas nos canteiros para que sejam içados e montados. Por outro lado, é possível usar o equipamento para substituir pessoas. Pode-se içar paletes de blocos para os andares onde o material será usado com a grua, liberando os operários para outras tarefas.

Qual o perfil das obras que têm utilizado o equipamento atualmente?
A presença da grua tem se tornado cada vez mais comum em obras grandes e rápidas, com grande volume de peças industrializadas. Os prédios estão ficando cada vez mais altos, com grandes distâncias verticais a serem vencidas. O uso de armaduras pré-montadas também tem exigido a presença de gruas, pois não existe outro meio de içá-las e movimentá-las.

O que deve ser considerado na hora de dimensionar o equipamento?
Em primeiro lugar, o volume da carga. Se for levar uma carga de 1,5 t, por exemplo, é preciso se certificar de que a grua terá capacidade para realizar essa tarefa. O comprimento da lança (distância entre a ponta da lança e a torre) e a altura na qual será montada a grua também devem ser considerados. Hoje é possível escolher diferentes tipos de máquinas, como as de torre fixa, sobre trilhos, ascencionais ou articuladas. Esse último modelo, inclusive, permite que a lança gire, o que tem permitido flexibilidade maior para que as construtoras possam atender a nova legislação envolvendo o uso do equipamento na cidade de São Paulo.

Quais são os erros que devem ser evitados com relação ao posicionamento do equipamento no canteiro?
Um dos piores erros é posicioná-la de modo que não alcance o local de chegada e entrega dos materiais. Ainda temos acompanhado muitas falhas desse tipo, infelizmente. Por isso, o ideal é contar com um bom projeto que especifique a posição ideal da grua dentro do canteiro.

Logística e segurança
Um dos pontos fundamentais para garantir a produtividade e a segurança é o posicionamento correto do equipamento no canteiro. A posição deve ser definida em projeto, de modo a permitir seu acesso a todas as áreas de carga e descarga de materiais. Já o planejamento da operação da grua deve ser feito sempre por um engenheiro qualificado considerando todos os ciclos de trabalho, além da velocidade de içamento e a capacidade de carga da grua.

De acordo com Camilo Penteado, consultor em segurança do trabalho e gerenciamento de obra e diretor da Cape Engenharia, o ideal é que as construtoras contem com um plano de movimentação de cargas para evitar quaisquer riscos de acidentes. Outro cuidado importante é contar com uma boa logística e com sinaleiros bem treinados, pois são esses profissionais que fazem a amarração da carga.

Segundo o engenheiro, o maior risco envolvendo gruas não é a queda do equipamento, e sim de cargas sobre os operários. "Raramente o próprio equipamento cai. Esse tipo de acidente normalmente acontece por falta de manutenção", observa. Para evitar ocorrências do gênero, itens como cabos de aços, ganchos, motores e aterramento elétrico devem ser verificados diariamente. Durante a escolha do fornecedor, também é recomendável que o construtor exija um bom contrato de manutenção e equipamentos com dispositivos mínimos de segurança (preferencialmente registrados nos contratos).

As etapas de içamento e movimentação devem ser rigorosamente fiscalizadas e supervisionadas a fim de impedir a circulação de operários no raio de circunferência de atuação do equipamento. "Nos treinamentos, temos o cuidado de ensinar que as áreas de carga, descarga e movimentação de carga devem estar sempre isoladas. Parece uma tarefa simples, mas é muito difícil de executá-la. Se garantirmos que nenhuma carga se movimente sobre as pessoas, praticamente reduziremos as chances de acidentes a zero", conta Carvalho, lembrando que em caso de acidentes, todos os envolvidos são corresponsabilizados.

 

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>
Destaques da Loja Pini
Aplicativos