Paredes de concreto | Construção Mercado

Debates Técnicos

Paredes de concreto

Utilização bem sucedida depende do sistema de fôrma, da qualidade do concreto, de projeto adequado e de uma execução sincronizada com outros sistemas construtivos

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 152 - Março/2014
 

Marcelo Scandaroli
As paredes de concreto encontraram importante aplicação em obras habitacionais de padrão popular, especialmente nos empreendimentos do Programa Minha Casa Minha Vida

 

Nos últimos anos, o sistema de paredes de concreto avançou no Brasil, mas não no ritmo desejado pelas empresas fabricantes de fôrmas. A falta de padronização dos projetos, a burocracia na liberação de financiamentos e a falta de maturidade própria de um mercado em evolução são citadas por especialistas como os principais entraves para a expansão do segmento. A necessidade de ultrapassar as fronteiras dos projetos econômicos também está na lista de desafios a serem superados pelas empresas. "Um dos erros comuns é achar que o sistema de paredes de concreto só se destina a programas habitacionais populares, como o Minha Casa Minha Vida. O mercado precisa entender que é possível atender vários tipos de construção, tais como o industrial e comercial, com essa solução", diz Marcelo Milech, diretor de negócios da SH Fôrmas.

Outro gargalo, segundo Maria Alice Moreira, diretora comercial da Mills, é a pouca agilidade na entrega dos demais sistemas construtivos. Soluções de fachadas, pisos e acabamentos nem sempre chegam ao canteiro nos prazos estabelecidos, comprometendo a velocidade de execução que é justamente o principal ponto forte das paredes de concreto. "Isso nos prejudica. Construtoras que buscavam uma ou duas concretagens por dia foram obrigadas a desacelerar esses ciclos", conta Maria Alice.

Escolha certa
Para a execução das paredes de concreto, o mercado brasileiro disponibiliza basicamente três tipos de fôrmas: as metálicas, com quadros e chapas em alumínio ou aço; as metálicas com compensado, compostas por quadros em alumínio ou aço e chapas de madeira; e as fôrmas plásticas, formadas por quadros e chapas de plástico reciclável. A utilização de moldes adequados potencializa os ganhos do sistema, por isso a escolha do material deve levar em conta fatores como produtividade da mão de obra, peso por metro quadrado dos painéis, número de peças do sistema, durabilidade da chapa e possibilidade de reutilizações. Fatores como modulação dos painéis, flexibilidade diante das opções de projeto, adequação à fixação de embutidos e suporte técnico oferecido pelo fornecedor também são decisivos para a compra ou locação do tipo ideal de fôrma.

A existência de um projeto de fôrmas bem detalhado também é chave para viabilizar o sistema de paredes de concreto e sua qualidade de entrega. No documento, devem constar o detalhamento dos painéis e de equipamentos auxiliares, as peças de travamento, prumo e escoramento e, sobretudo, a sequência de montagem e desmontagem. Do ponto de vista arquitetônico, algumas diretrizes são importantes, como definição de medidas modulares, existência de geometrias simétricas e paredes alinhadas. "As regiões de transição devem ser pensadas para evitar elementos estruturais que prejudiquem a velocidade de aplicação do sistema, como, por exemplo, a presença de vigas e pilares", explica Thales Couto Braguim, engenheiro da OSMB, escritório de projeto especializado em projetos de paredes de concreto.

Concreto e limpeza
Para a montagem das fôrmas, é fundamental que a fundação esteja nivelada. Outro ponto importante para o desempenho do sistema é a qualidade do concreto. Como as paredes são moldadas em uma única etapa e em condições que não permitem o uso de vibradores, a massa deve apresentar elevada fluidez e plasticidade e ser lançada de modo homogêneo, evitando vazios de concretagem. "Usamos tanto o concreto convencional com slump de 180 mm, como o concreto autoadensável com abatimento de 700 mm. Ambos apresentam bons resultados, principalmente após o acerto do traço em termos de quantidade de cimento e de fibra de polipropileno", explica Braguim.

Dentre as patologias mais comuns envolvendo o sistema estão a ocorrência de pequenas fissuras devido à retração. Por isso, além do cuidado na composição do traço, a cura química nas paredes e lajes deve ser feita de forma rigorosa.

A retirada das estruturas provisórias deve ser feita após o concreto atingir a resistência prevista no projeto. Após a desmontagem, os painéis precisam ser limpos para remoção da argamassa aderida a eles. Essa etapa é fundamental para garantir a vida útil das fôrmas. Ela pode ser feita com a utilização de jatos fortes de água (com a pressão da água regulada para não danificar o acabamento das fôrmas), com uso de reagente ao concreto e ao desmoldante ou, ainda, com ferramentas com talhadeiras, palhas e escovas de aço.

 

ENTREVISTA THALES COUTO BRAGUIM
Além do econômico

ALESSANDRO GUIMARAES
"O mercado ainda está muito concentrado em unidades de baixa renda. Apesar de ser um método construtivo voltado para a industrialização da construção, ele poderia ser mais aplicado em empreendimentos de médio a alto padrão"
Thales Couto Braguim
engenheiro estrutural da OSMB

O mercado sabe projetar adequadamente o sistema de paredes de concreto?
Desde 2007 o número de unidades entregues em paredes de concreto só aumenta. Naturalmente o conhecimento do processo e a aprendizagem no decorrer do caminho, também cresceram. Os projetistas adquiriram experiência e estão realizando trabalhos muito melhores. Cabe ressaltar que a norma brasileira de projeto estrutural voltada para edifícios em paredes de concreto é recente, foi publicada em abril de 2012. Ela representou um grande avanço que possibilitou um aprofundamento no assunto.

Que parâmetros devem ser observados na hora de escolher as fôrmas?
O tipo de material influencia muito a durabilidade, o manuseio e o custo do equipamento. Por isso é importante saber o que se deseja construir, como e em qual quantidade. Geralmente as fôrmas de aço e alumínio são mais caras, mas têm durabilidade maior em relação às fôrmas de compensado e às fôrmas de placas de plástico. A vantagem dessas últimas é que são mais leves.

O mercado de paredes de concreto está bem desenvolvido?
O mercado ainda está muito concentrado em unidades de baixa renda. Apesar de ser um método construtivo voltado para a industrialização da construção, ele poderia ser mais aplicado em empreendimentos de médio a alto padrão.

Mesmo com a falta de padronização desses empreendimentos?
Esses mercados têm como característica serem mais personalizados, mas mesmo assim o índice de repetição num pavimento-tipo, por exemplo, é alto. A construção desses pavimentos em paredes de concreto seria muito mais veloz em comparação a uma estrutura convencional. Talvez o impeditivo para que isso ainda não ocorra em maior escala seja o alto custo inicial das fôrmas. Mas é importante lembrar que as fôrmas de alumínio e aço têm vida útil longa. O construtor deveria enxergar esse custo como um investimento ou como um ativo da empresa.

 

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