Fachadas cortinas | Construção Mercado

Debates Técnicos

Fachadas cortinas

Desenvolvimento do sistema unitizado alterou a forma de produzir e executar. Expectativa é a de que adoção ao sistema avance no segmento de empreendimentos multiuso

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 153 - Março/2014
Divulgação: 5tec
A instalação dos módulos unitizados pode envolver uma equipe composta por oito a dez pessoas, responsáveis pelo içamento e pela fixação dos painéis

Em todo o Brasil, estima-se que sejam construídos 1,4 milhão de metros quadrados de fachadas- -cortina anualmente. Apesar de ser considerado um consumo satisfatório, a expectativa do setor de esquadrias é que esse número chegue rapidamente a dois milhões de metros quadrados nos próximos cinco anos. O desenvolvimento de novas tecnologias e o aumento do número de empreendimentos multiuso, que englobam edifícios residenciais, corporativos e centros de compra e lazer em um único espaço, podem ser decisivos para confirmar essa previsão.

De acordo com Arimatéia Nonatto, gerente de engenharia e produtos da Belmetal, o maior volume de fachadas- cortina produzidas no País ainda utiliza a primeira geração tecnológica de pele de vidro encaixilhada, com 55% do mercado. O sistema stick (de segunda geração), cuja caixilharia é composta por colunas e travessas de alumínio e colagem posterior dos vidros nas folhas, abocanha 40% do mercado. Apenas 10% das fachadas empregam o sistema unitizado, que permite imprimir a lógica de produção industrial às fachadas. Os painéis compostos por perfis de alumínio, vidro, gaxetas de vedação e demais componentes especificados em projeto - tudo em módulos únicos - chegam inteiramente prontos aos canteiros, aumentando a produtividade.

"Há muito espaço para essa solução no mercado", aponta Nonatto, lembrando que obras icônicas que empregaram a solução, como a do edifício-sede do Bank Boston, em São Paulo, inauguraram o seu uso em território nacional há dez anos. Relativamente consagrado no Sudeste, o sistema começa a migrar para o Nordeste. Um dos maiores entraves para garantir a sua disseminação de forma adequada é a quantidade e localização dos sistemistas. Apenas 21 empresas constroem fachadas-cortina com qualidade e engenharia aplicada. Praticamente todas concentradas no Sudeste.

Maior complexidade
Os painéis unitizados chegam à obra prontos, são erguidos por gruas e ancorados em ganchos chumbados nas lajes do pavimento. A sua instalação é feita pelo lado interno da estrutura, no apoio da laje. "Isso permite uma velocidade de execução muito maior. É possível fechar os andares antes do término de toda a estrutura", explica Tatiana Domingues, consultora de esquadrias e vidros da Paulo Duarte Consultoria.

Para que a velocidade da obra realmente seja grande é preciso garantir a execução de estruturas milimetricamente precisas. Esse é um dos maiores gargalos do sistema, segundo especialistas (veja debate). De acordo com o consultor de fachadas Paulo Celso Duarte, a maioria das obras brasileiras não é preparada para receber o sistema. "Muitas construtoras ainda não entendem o sistema unitizado, que requer muito estudo ainda na fase de projeto e de preparo dos canteiros, inclusive prevendo o uso de equipamentos para sua movimentação e içamento dentro da obra", observa.

Um dos pontos cruciais para que o uso da solução seja bem-sucedido é evitar desaprumos. Ainda na fase de concretagem é necessário que haja um rigoroso controle topográfico da estrutura de concreto e das locações dos insertos metálicos. Em alguns casos, os próprios insertos podem ficar fora do prumo, exigindo a aplicação de chumbadores químicos para absorver as variações de prumo e locação.

Avanços
O sistema unitizado impôs uma série de mudanças no modo de produção, na qualidade, no desempenho e na forma de projetar fachadas. Passados quase dez anos de sua chegada às obras comerciais brasileiras, a perspectiva é a de que evolua também em termos de custos. "Os serralheiros se equiparam e os grandes sistemistas, empresas que detêm os desenhos dos perfis, já atuam no mercado nacional com custos viáveis", conta Tatiana, observando que o sistema stick (geração anterior de fachadas-cortina) consome mais alumínio em sua produção.

Outra revolução proporcionada pela solução foi a possibilidade de criação de módulos múltiplos de 2,5 m x 4 m (contra os de 1,25 m x 3 m convencionais), desejo imposto pelos arquitetos e absorvido pelas empresas fornecedoras. Graças à sofisticação dos projetos, também já é possível incluir frisos verticais, granito e até brises nos módulos. "O conceito não mudou, o painel ainda deve ser ancorado na fachada e interligado aos outros, funcionando como uma massa única. Mas tem de subir com um inserto de espera para que esses elementos decorativos sejam encaixados depois", explica Tatiana.

Vidros
Um dos aspectos polêmicos envolvendo fachadas- -cortina é a pertinência do seu uso face à necessidadede maior condicionamento de ar nas edificações. Nesse ponto, a especificação correta do vidro e de outros elementos de sombreamento é fundamental para aumentar a eficiência energética das edificações que utilizam esse tipo de fechamento.

Dentre os vidros mais avançados, destacam-se os Low-e (low emissivity glass). Com uma camada de óxido metálico aplicada em uma das suas faces, o modelo controla a transferência de temperaturas entre ambientes, sem impedir a transmissão luminosa. Outro produto bastante usado é o vidro duplo insulado, composto por um conjunto de duas ou mais chapas de vidro intercaladas por uma câmara de ar desidratado ou gás carbônico, que proporciona o bloqueio do calor proveniente da radiação solar. Por fim, os vidros metalizados a vácuo e fotovoltaicos também proporcionam controle solar e eficiência energética às fachadas. No entanto, são pouco utilizados no Brasil e em escala mundial por conta dos altos custos envolvidos na sua produção.

ENTREVISTA - TÂNIA YANG

Fachadas moduladas

Quais são as tendências arquitetônicas envolvendo fachadas-cortina?
Hoje o desafio para a indústria local é atender às formas e volumes cada vez mais arrojados. Falamos de curvas, grandes inclinações e panos. Só que mais do que atender à necessidade de formatos diversos, os fabricantes precisam também garantir a qualidade de execução e a eficiência de uso do sistema.

O uso cada vez mais frequente dos sistemas unitizados alterou a maneira de projetar fachadas?
Uma fachada está diretamente vinculada à estrutura principal e, dada a evolução da construção civil, o sistema modulado tem se tornado mais presente em nossa rotina de trabalho. Volumes maiores em extensão e altura precisam ser revestidos de forma mais industrializada. Os sistemas de fachada unitizados vieram para contribuir com isso.

Foto: Marcelo Scandaroli


'Hoje o desafio para a indústria local é atender às formas e volumes cada vez mais arrojados'

Há alguma restrição de uso para o sistema unitizado?
Esse sistema é bastante produtivo em função da repetição de módulos, mas isso não significa que não seja possível usá-lo com módulos com desenhos específicos. Hoje a indústria está preparada para atender essas necessidades. Mas não é recomendável usálos em pequenas áreas com necessidades de soluções muito particulares.

Quais são os pontos frágeis do sistema?
Muitas vezes o uso do sistema se torna inviável não por ele em si, mas por seus componentes. Por exemplo, o vidro curvo já existe no mercado, porém é caro e o seu uso pode ser impeditivo.


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