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Debates Técnicos

Fachadas cortinas

Desenvolvimento do sistema unitizado alterou a forma de produzir e executar. Expectativa é a de que adoção ao sistema avance no segmento de empreendimentos multiuso

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 153 - Março/2014

Mesa-redonda

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1 Paulo Celso Duarte arquiteto consultor da Paulo Duarte Consultores
2 Marcelo Valadão diretor de contratos da Odebrecht Realizações Imobiliárias
3 Lucínio Santos presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Esquadrias de Alumínio (Afeal)
4 Jairo Gonçalves Martins gerente de produtos da Pilkington
5 Danila Ferrari consultora técnica da Cebrace
6 Arimatéia Nonatto gerente de engenharia e produtos da Belmetal
7 Jorge Ichikawa gerente de produto e de mercado da Alcoa

Qual é o panorama do mercado de fachadascortina hoje?
Lucínio Santos - Hoje, a melhor opção para fachadas-cortina é o sistema unitizado. Esse sistema tem muito espaço para crescer, pois há um mercado enorme nas mãos das pequenas construtoras. As multinacionais que estão chegando ao Brasil querem se instalar em edifícios sustentáveis. Há também grandes projetos, misto de corporativos e residenciais, os chamados multiusos, que estão sendo executados, abrindo mercado para o sistema de fachadas-cortina.
Marcelo Valadão - Os sistemas unitizados conferiram maior velocidade de montagem às fachadas. Mas estamos passando por uma curva de aprendizado, pois o sistema é complexo. Não acredito que iremos regredir e voltar para o uso do sistema stick, mesmo com o cenário econômico pouco favorável. Vale lembrar que o segmento de edificações corporativas deve retrair.

O número de consultores e projetistas é satisfatório para atender ao vulto de edificações que usam ou pretendem lançar mão do sistema?
Paulo Celso Duarte - No Brasil, esses profissionais não chegam a dez. Mas dizer que são poucos os consultores é bastante relativo, já que no País o segmento de consultoria não é muito expressivo na maioria das especialidades. Hoje, os profissionais que atuam nessa área possuem formações diversas e têm abordagens muito diferentes. O mercado é pequeno, mas tem trabalho para todos. Não há concorrência para escolher consultor, o que pesa muito é a preferência dos arquitetos.

É comum que os construtores busquem o apoio das consultorias?
Duarte - Algumas construtoras, com visão mais ampla, costumam se importar com a qualidade da fachada e contratar diretamente os nossos serviços. Mas, em geral, os construtores não têm interesse pela consultoria. Normalmente somos procurados pelos arquitetos ou pelos investidores, que querem prédios bem executados.

Esse cenário pode mudar em função da entrada em vigor da NBR 15.575, a Norma de Desempenho?
Duarte - Acredito que sim. Mais do que eficiência energética, o foco ainda é acústica. No Brasil, não temos uma cultura de exigir conforto energético, até porque nosso clima é ótimo. Por enquanto, não sentimos em nosso escritório alteração no volume de consultas em função da norma. Mas a NBR 15.575 tem impulsionado sim uma procura maior por consultorias diversas.

Pode-se falar que o sistema unitizado foi a grande evolução do setor nos últimos anos?
Arimatéia Nonatto - O conjunto de sistemas é que representou a grande evolução do setor. O sistema unitizado não está sozinho. Há o painel que pode carregar brises, granitos etc., de forma sistematizada.
Santos - Com esse sistema, a interação de produtores de vários materiais dentro da obra inexiste, provocando um ganho de produção e logística. Os unitizados podem chegar préfabricados, evitando a montagem dentro dos canteiros e aumentando o controle de qualidade dessas peças. Cabe ressaltar que toda a evolução do mercado se deve aos consultores, que conseguiram determinar padrões técnicos elevados para as obras, evitando a concorrência pelo menor preço. Os projetos internacionais trouxeram um grau de dificuldade grande para nossa engenharia, o que impulsionou o mercado também.
Jorge Ichikawa - O sistema unitizado permite um grande ganho de produtividade. Mas o projeto tem de nascer com o pensamento também unitizado. Inclusive a obra deve ser preparada para receber os painéis. Pequenos fabricantes já estão olhando os unitizados de forma diferente, o que tem contribuído para a evolução do setor. Para a cadeia, isso é ótimo.
Valadão - Vale lembrar que além do segmento comercial, os segmentos residencial e de retrofit também têm se interessado pela solução. No momento estamos produzindo um residencial que terá fachada de vidro.

E quanto ao custo, qual é a percepção das construtoras sobre o sistema unitizado?
Santos - As construtoras estão começando a perceber que o sistema também é vantajoso em termos de custos. Quando se contrata esquadria convencional, também é preciso contratar e executar todos os serviços envolvidos. Já no unitizado, a fachada é montada antes de a estrutura ser concluída. Muitas obrigações que seriam da construtora são transferidas para o fabricante do sistema. Inicialmente, o produto pode ser mais caro, mas a relação entre custo e benefício é bastante vantajosa. A solução permite uma velocidade muito maior a essa etapa da obra.
Duarte - Fui um dos primeiros a usar unitizado no Brasil, na obra do Bank Boston, em São Paulo. Antes disso, já tinha convivido com o sistema fora do Brasil. Trata-se de uma solução préfabricada, mas os demais elementos envolvidos também devem acompanhar a rapidez que ela permite. Para isso, seria preciso melhorar o sistema de pré-fabricação da própria construção.

De que forma?
Duarte - Em algumas obras, por conta da dificuldade das construtoras em entender o sistema, o tempo de execução acaba sendo maior. É preciso tentar incluir todos os elementos da fachada no painel unitizado, como granito e brises. Também é ideal que a estrutura seja pré-fabricada. Quando feitas corretamente, obras com o sistema unitizado permitem inclusive que alguns andares estejam em uso enquanto os demais estão sendo concluídos. O retorno do capital é muito mais rápido. Mas, infelizmente, não tem sido possível alcançar essa velocidade em todas as obras.

Por quê?
Duarte - Falta compreensão sobre o sistema. As construtoras ainda não sabem usá-lo. Há também problemas em canteiro. Fiz uma obra que já havia chegado ao oitavo andar, mas ainda não havia nenhum fechado. Em alguns casos, inclusive, é preciso parar a execução das fachadas, por conta de atrasos em outros serviços.
Ichikawa - Muitos desses problemas são próprios de uma fase de adaptação natural ao uso do sistema, que é relativamente recente no Brasil. Precisamos qualificar a mão de obra e equacionar o problema da qualidade da estrutura para que a solução seja mais eficiente.
Santos - É preciso que as construtoras reúnam todos os fornecedores da obra para que cada um saiba o que irá fazer e em que momento entrará na obra. O sistema demanda planejamento e também uma compra técnica feita, preferencialmente, por um engenheiro qualificado. Em algumas construtoras, isso ainda não acontece. Também é preciso contar com um engenheiro acompanhando a execução da fachada na obra.

O sistema exige ajustes precisos de nível e prumo. Isso torna a sua contratação mais difícil?
Valadão - Sim, muitas vezes a contratação do sistema é postergada porque não se entende a complexidade do que se irá contratar. É preciso saber quais são os níveis de tolerância de nível permitido logo no momento da concretagem da primeira laje. Mesmo as construtoras mais estruturadas têm dificuldades em efetivar os planos discutidos. Trabalhamos com arquitetos e consultores para tentar viabilizar os sistemas mais racionais.
Jairo Gonçalves Martins - Algumas boas soluções utilizadas em alguns empreendimentos podiam ser replicadas, mas acabam não sendo disseminadas. É preciso espraiar o conhecimento entre toda a cadeia.
Jairo Gonçalves Martins - Algumas boas soluções utilizadas em alguns empreendimentos podiam ser replicadas, mas acabam não sendo disseminadas. É preciso espraiar o conhecimento entre toda a cadeia.

Qual é a maior dificuldade enfrentada pelas construtoras para o uso correto desse tipo de fachada?
Valadão - Os sistemistas atendem momentos de alta demanda e os profissionais especializados que trabalham dentro dessas empresas acabam tendo pouco espaço nas suas agendas para atender às obras. A interação entre os agentes é muito importante. Também enfrentamos dificuldades para ensaiar o sistema, para garantirmos que estamos no caminho certo. Há filas enormes em laboratório para realizar essa tarefa.
Santos - Esse problema deve ser resolvido em breve. Estamos entregando um laboratório na capital paulista para testar o sistema. Também estamos construindo um novo centro tecnológico em Atibaia (SP).

'Falta compreensão sobre o sistema unitizado. As construtoras ainda não sabem usá-lo'
Paulo Celso Duarte consultor em fachadas

Qual é o momento certo de contratar o sistema?
Santos - O mais cedo possível, para que o fabricante tenha tempo de se estruturar e comprar os materiais necessários para montar o painel. Com o projeto da obra definido, é hora de contratar o sistema. Também é preciso conhecer quais são os empreiteiros que vão interagir com os fornecedores. Geralmente, os projetos chegam a nós durante o estudo de viabilidade de custo da obra. Em alguns casos, o sistema é contratado sob medida, o que exige a produção de matrizes novas aumentando mais o prazo de entrega.
Valadão - O sistema de fachadas-cortina deve ser contratado como se contrata elevadores, ou seja, entre dez a 12 meses antes de entrar na obra. Isso por si só representa uma grande mudança de paradigma na contratação de esquadria.

Qual seria a evolução da tecnologia unitizada?
Nonatto - A próxima evolução são os painéis autolimpantes. Também esperamos avançar no item segurança para que, em caso de incêndios, o sistema garanta rotas de escape para os usuários da edificação. Também já se fala de fachadas sustentáveis, com captação de energia solar por elas. Mas para que esse sistema se desenvolva, precisamos estabelecer parcerias com as construtoras e com o Estado.
Danila Ferrari - Vale lembrar que não foi apenas o sistema que evoluiu, mas os vidros também. Em algumas obras, por exemplo, o projeto é misto. Podem ser usados tipos diversos de vidro, dependendo da necessidade de cada face da fachada. Um vidro bem especificado é decisivo para a eficiência energética do edifício.


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