Para executivo da RICS, adoção de normas internacionais para profissionais de avaliação imobiliária tornam Brasil mais atraente para investidores | Construção Mercado

Entrevista

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Para executivo da RICS, adoção de normas internacionais para profissionais de avaliação imobiliária tornam Brasil mais atraente para investidores

Por Giovanny Gerolla
Edição 154 - Maio/2014
 

Divulgação: RICS
"O mundo todo, e não apenas o Brasil, vem pedindo por consistência na forma de abordar as avaliações para fins de investimentos"

Investidores privados e bancos de financiamento internacionais, que apostam em operações com capitais realizadas em ambientes seguros, terão interesse redobrado no Brasil caso haja confiança nas avaliações de ativos produzidas por aqui. É o que aponta Mark Gerold, presidente do Grupo Global de Avaliação Profissional da Royal Institution of Chartered Surveyors (Rics), instituição internacional de qualificação de profissionais em terrenos, propriedades e construção que atua no País desde novembro de 2011.

Em conferência inédita realizada no fim de março, em São Paulo, a Rics lançou a nova edição do Red Book - o "Rics - Normas Profissionais de Avaliação", espécie de cartilha para a orientação e capacitação de avaliadores. Com um capítulo novo, inteiramente em português e tratando de pontos específicos para o trabalho no mercado brasileiro, a ideia é preparar os avaliadores do Brasil para gerar informações independentes e dentro de padrões internacionais de qualidade e utilidade.

No Red Book, foram estabelecidas normas imperativas sobre inspeções, conteúdo de relatórios de avaliação, orientações de melhores práticas e comentários relacionados para todos os membros da Rics que realizam avaliações de ativos, em 146 países.

Na entrevista a seguir, Gerold discute a necessidade de profissionalizar e padronizar procedimentos no mercado imobiliário.

Quais os ganhos para o mercado brasileiro ao adotar os padrões previstos no Red Book?
O mundo todo, e não apenas o Brasil, vem pedindo por consistência na forma de abordar as avaliações para fins de investimentos. O que esse documento faz é estabelecer padrões para este serviço. Mostra como chegar a um aparato de avaliação de ativos que ofereça maior segurança a quem usa aquelas informações para decidir onde pode ou não pode, deve ou não deve alocar seu capital. O futuro será da busca por ambientes confiáveis para a operação de capitais e isso interessa não só a investidores privados, mas a bancos de financiamento, governos e instituições de todo o mundo. A uniformização desta linguagem possibilita que as avaliações produzidas no Brasil sejam acessadas por quaisquer interessados, em qualquer lugar, com total confiança.

Há uma demanda reprimida por esse tipo de padronização no Brasil?
Percebemos nas grandes firmas internacionais de investimento, em todos os seus escritórios ao redor do mundo e inclusive em São Paulo, que já estão usando o modelo Rics-IVS de avaliação e estão desesperadas para encontrar mais avaliadores capacitados, porque se precisam crescer, o fazem com base no uso desses padrões internacionais. Não gostariam de ter que mandar para cá avaliadores de suas sedes ou um grupo de norte- americanos ou ingleses. O melhor é que haja brasileiros qualificados para o trabalho a ser feito aqui. O negócio-chave da Rics é, portanto, aumentar o nosso número de membros, que é um aumento do número de profissionais e empresas usando nossa ferramenta.

No Brasil, as avaliações imobiliárias são feitas por engenheiros ou corretores de imóveis. Qual é o perfil profissional mais adequado para aplicar o modelo de avaliação internacional da Rics?
Somos muito felizes na Inglaterra por ter uma categoria própria de profissionais envolvidos com negócios imobiliários que foram formados e preparados para isso. Eventualmente, buscam outras atividades, como corretagem de imóveis, por exemplo - muito em função desta qualificação que já possuem. Há aí, no entanto, um conflito de interesse, porque ele será um corretor que conhece bem os mecanismos de avaliação, por um lado, mas que tem um ganho pessoal com a venda ou compra do imóvel. Postulamos então a ideia de objetividade independente, conceito muito aparente no Red Book.

A cultura do "jeitinho brasileiro" está permeável a receber padrões tão rigorosos de qualidade de avaliação?
Seria errado chegarmos aqui para impor um jeito único de fazer as coisas. Primeiro nos aproximamos para entender quais são os padrões brasileiros, suas práticas de avaliação, para saber como pode ser feito este alinhamento. A medição de níveis de desempenho predial é algo que existe em qualquer País. Então vemos como isso funciona, para propor um novo jeito ou uma adaptação a um sistema de medição e linguagem de apresentação globalmente compreensível. Assim, por exemplo, você sabe exatamente, ao mencionar uma área quadrada construída, o que está pagando em qualquer lugar do mundo ou o que vai ter em termos de acomodação e comodidade. É uma questão de entendimento, de alinhamento, mas também de consistência, deixando tudo muito claro e transparente para os interessados.

Como garantir então que esses padrões transferidos serão realmente seguidos?
Temos uma área de regulação que faz esse controle. Todos os membros da Rics devem seguir esses padrões. São normas mandatórias. Nossos avaliadores são registrados, sujeitos à supervisão do time de registro, regulação e controle. Assim, avaliadores não são controlados todos os anos, mas devem nos apresentar anualmente um relatório de suas atividades e, como consequência, são averiguados. Os membros que não seguirem padrões ficarão marcados e observados; serão visitados, terão arquivos inspecionados, para melhor compreensão do que e como estão fazendo. A ideia não é agir como polícia, mas sim como educador. A parte de polícia também existe - se um membro insiste em fazer a coisa do jeito dele, nossa abordagem muda. Mas a primeira ideia é educar, para que melhorem e adaptem seus processos. É como funciona na Inglaterra e é como chega a todos os países do globo. Todos estão sujeitos à mesma regulação.

Como deverá ser a formação de profissionais de acordo com os padrões da Rics?
Com o tempo, haverá necessidade de um processo educacional mais consolidado e parrudo - não só para que profissionais atendam à Rics, mas também governos locais e grandes empresas do mercado, interessadas em investir. Pessoas de todos os níveis de interesse poderão exigir informação de qualidade, antes de tomar decisões.

 

"Com o tempo, haverá necessidade de um processo educacional mais consolidado e parrudo - não só para que profissionais atendam à Rics, mas também governos locais e grandes empresas do mercado, interessadas em investir"

 

Qual é o cenário do Brasil hoje, para investidores internacionais, no contexto latino-americano?
São Paulo é uma imensa central de produção e força que se expande para a América Latina. Conforme os investimentos vão acontecendo e se sedimentando no Brasil, o País se torna ainda mais atraente. Temos que encarar o fato de que cada País é diferente e o apetite dos investidores varia em função de como esses mercados funcionam e qual seu grau de risco. A diferença é que o Brasil já pode ser visto como uma economia crescida e muito madura. Não mais emergente; quase emergida. É internacionalizada e a conectividade de sua economia com o resto do mundo se transforma em atrativo.

Por Giovanny Gerolla

 

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