Incorporadoras listadas na bolsa conseguem sair do vermelho e ampliar o lucro, mas ainda falta concluírem seus planos de reestruturação | Construção Mercado

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Incorporadoras listadas na bolsa conseguem sair do vermelho e ampliar o lucro, mas ainda falta concluírem seus planos de reestruturação

Por Alfredo Netto
Edição 154 - Maio/2014
 

Alena Hovorkova/shutterstock

A temporada de apresentação dos balanços de 2013, encerrada em 28 de março último, mostrou que as incorporadoras listadas na Bolsa de Valores vivem situações bastante distintas. Enquanto algumas já estabilizaram as operações, outras ainda lutam para sanar os problemas criados pelo ciclo de crescimento exagerado entre 2009 e 2011, que forçou as companhias a se reorganizarem após sofrerem prejuízos provocados por atrasos de obras, descontroles de custos e cancelamentos de vendas de imóveis. A boa notícia para o mercado é que dentre as companhias que passavam por processos de reestruturação, quase todas conseguiram fazer ajustes significativos nas operações ao longo do ano passado e até mesmo voltar a ter lucro. Essa melhora indica que a estratégia colocada em prática deu certo.

A melhora percebida na temporada de balanços, porém, ainda não significa que as empresas estejam completamente recuperadas. Para isso, ainda é preciso entregar uma parte remanescente da safra de obras antigas, reduzir os altos níveis de endividamento e recuperar as margens. Se tudo correr bem, 2014 pode ser o ano da finalização desse processo, segundo especialistas consultados pela reportagem.

"O foco do setor neste ano continua sendo melhora da rentabilidade e a desalavancagem. O ano deve ser pensado para consolidação desse processo", avalia Marcelo Motta, analista do banco JP Morgan para o setor de construção civil na Bolsa.

"Para as companhias em processo de reestruturação das operações, a expectativa era de que os projetos de safras antigas diminuíssem sua contribuição na formação do resultado e isso impulsionasse a recuperação da rentabilidade, o que, de fato, ocorreu", observa o analista de construção civil Wesley Bernabé, da corretora BB Investimentos. "Esperamos, de forma geral, que as construtoras continuem em processo de melhora da rentabilidade e geração de caixa", completa.

Dentre as 16 incorporadoras de capital aberto, 13 apresentaram melhora na comparação do resultado líquido de 2013 com 2012, seja com crescimento do lucro (Cyrela, Eztec, Even, Helbor, João Fortes, Rodobens, Trisul e Direcional), reversão do prejuízo (Gafisa, Tecnisa e Rossi Residencial) ou redução do prejuízo (PDG e Viver). Apenas duas mostraram piora nos números, com queda no lucro (MRV) e aumento no prejuízo (CR2). Veja mais nos gráficos. Até o fechamento desta reportagem (em 7 de abril), a Brookfield Incorporações foi a única a não apresentar o balanço, adiado para 10 de abril.

Marcelo Scandaroli
O ano de 2013 foi marcado por uma maior cautela das grandes incorporadoras em seus lançamentos; no entanto, ainda existe uma parcela de imóveis remanescentes da época do boom com cronogramas e custos estourados

Retomada
Os números que mais chamaram a atenção do mercado foram os de Gafisa, Tecnisa, Rossi Residencial e PDG Realty, pois representam uma guinada no rumo dos negócios das companhias, como veremos nas próximas linhas.

A Gafisa teve prejuízo de R$ 124,5 milhões em 2012 e lucrou R$ 867,4 milhões em 2013. "Estou bastante otimista de que a companhia virou a página", afirmou o diretor presidente, Duílio Calcioari, em conversa após divulgação do balanço. O resultado foi impulsionado pela venda do controle da empresa de loteamentos Alphaville Urbanismo, em negociação de R$ 1,4 bilhão com as gestoras de recursos Pátria Investimentos e Blackstone. Com a entrada de recursos, a alavancagem (medida pela relação entre dívida líquida e patrimônio líquido) caiu de 126% para 36,1% em um ano, nível considerado saudável por analistas. A venda foi uma decisão dura para o grupo, pois Alphaville era responsável por índices altos de rentabilidade. Mas se não fosse essa negociação, o lucro do grupo seria de apenas R$ 81,2 milhões, e o endividamento ainda permaneceria grande.

A reestruturação da Gafisa também envolveu uma estratégia comum no setor, que foi o foco na conclusão de projetos antigos. Em 2013, a companhia entregou 13,8 mil unidades, resultado em linha com a meta, que ia de 13,5 mil a 17,5 mil. O foco da empresa daqui em diante é completar a entrega de cerca de mais sete mil unidades antigas e com rentabilidade comprometida, o que ainda vai pressionar as margens. Outro ponto importante será a separação de Gafisa de sua subsidária Tenda, dando origem a duas empresas independentes, conforme anunciado em fevereiro. Esse processo deverá terminar apenas em 2015, segundo previsão do próprio grupo.

A Tecnisa, por sua vez, teve lucro de R$ 221,1 milhões ante prejuízo de R$ 170,9 milhões no ano anterior. A virada ocorreu graças ao maior controle sobre orçamentos e obras, saída de mercados menos rentáveis e definição de margens mínimas para novos produtos. Em paralelo, a incorporadora lançou o projeto Jardim das Perdizes, conjunto de edifícios residenciais que irá formar um minibairro na zona Oeste da cidade de São Paulo. A margem líquida média desse empreendimento foi de 28,6% no ano, ante a margem consolidada de 12,3% da companhia. Assim, o Jardim das Perdizes respondeu por 53,5% do lucro da Tecnisa em 2013. Para a reestruturação ficar completa, ainda é preciso baixar a alavancagem, que fechou 2013 em 122%, desencadeando despesas financeiras pesadas.

Já a Rossi deixou pra trás um prejuízo de R$ 205,7 milhões para anunciar um modesto lucro de R$ 41 milhões no ano. O mais importante, no entanto, foi a virada operacional. A Rossi conseguiu concluir a construção de 22 mil unidades em 2013, seguida pelo repasse de boa parte desses clientes para o financiamento bancário, contribuindo para geração de caixa. Em paralelo, os cancelamentos de vendas caíram 55% no ano. Esses fatores juntos ajudaram a companhia a baixar a alavancagem de 123% em 2012 para 97,3% em 2013, patamar ainda alto, mas que seguirá no foco da empresa neste ano.

A PDG Realty também melhorou bastante a situação de seu balanço, e, mesmo sem voltar para o azul na contabilização do resultado anual, confirmou a tendência de virada. No quarto trimestre, a PDG obteve lucro de R$ 19 milhões, interrompendo uma série de quatro balanços consecutivos com números negativos. "Os resultados do final de 2013 nos deixaram bastante animados e otimistas", afirmou o diretor presidente, Carlos Piani, em conferência com investidores e analistas. No quarto trimestre, a companhia vendeu de uma vez só 100% do empreendimento comercial Domo Corporate. Sozinho, o negócio garantiu ganho líquido de R$ 56 milhões. Sem isso, a PDG teria amargado o quinto prejuízo trimestral seguido. Mas os principais pontos da virada da PDG dizem respeito à diminuição dos riscos operacionais. Em 2013, a companhia cancelou 48 projetos que já haviam sido lançados, mas não atendiam às metas internas de rentabilidade. Além disso, entregou 27,7 mil imóveis no ano, 7% acima da expectativa inicial. A próxima meta é gerar caixa e baixar a alavancagem de 149,1%, uma das mais altas do setor.

 

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