Bibliotecas de BIM e seu risco jurídico - uma visão técnica | Construção Mercado

Artigo

Bibliotecas de BIM

Bibliotecas de BIM e seu risco jurídico - uma visão técnica

Marcus Granadeiro
Edição 155 - Junho/2014
 

[Quem será o responsável por um erro de projeto causado por um componente com propriedades erradas?]

A indústria de software gosta de mudar nomes; assim como o CAD (do inglês Computer Aided Design) mudou para Building Information Model (BIM), os antigos blocos agora se chamam componentes ou objetos. Uma das grandes diferenças do BIM está relacionada à maneira com que ele lida com estes componentes.

Blocos são usados desde os primórdios do CAD, mas a automatização que o BIM proporciona em relação aos componentes é algo novo. Há muito tempo empresas de móveis, louças sanitárias, luminárias, bem como todos os tipos de fornecedores de equipamentos, disponibilizam bibliotecas para o uso de seus clientes. Escritórios de projeto se esmeram em criar padrões para carimbos e personalizar blocos para atender a demandas específicas. Construtoras já têm blocos padrões para conexões elétricas e hidráulicas das diversas concessionárias. Ou seja, isto já é praxe no mercado de CAD.

Os blocos no CAD são desenhos que se repetem inúmeras vezes dentro do mesmo desenho ou por vários desenhos da empresa. Podem ser de simples geometria ou, mesmo conter atributos com propriedades. Com o tempo, foram desenvolvidas muitas rotinas e programas para usar estes atributos com o intuito de automatizar tarefas, como gerar lista de material e montar tabelas de quantitativos. Em caso de carimbos, as propriedades, normalmente, são usadas como indexadores de documentos e podem ser manipuladas por sistemas de gestão documental mais avançados.

Contudo, com o avanço do uso do BIM, os fabricantes estão iniciando o processo de disponibilização dos componentes na internet. O usuário "baixa" a biblioteca de componente e a utiliza em seu projeto. Em um primeiro momento parece muito semelhante com o que tínhamos no mundo CAD; mas há um problema, que está justamente na automatização que o BIM traz em relação aos dados que o componente possui.

Os componentes contêm informações que vão além do desenho, das entidades gráficas. Eles possuem parâmetros e dados que serão levados em conta para simulações, cálculos e decisões de projeto. Ou seja, a informação contida no componente é base para que o BIM apresente resultados e faça modelagens, simulações e cálculos.

Dentro deste contexto é importante colocar uma questão. Quem será o responsável por um erro de projeto causado por um componente com propriedades erradas? Não estamos pensando em catástrofes, pois, obviamente, nenhum projetista confiaria plenamente em resultados de máquinas para definições e dimensionamentos importantes. Mas podemos ter casos como um empreendimento não obter uma certificação de sustentabilidade que a simulação sinalizava possível. Todas situações que, certamente, levarão a algum prejuízo.

Para melhor ilustrar, vamos imaginar um cenário em que o fabricante do equipamento X contrata uma empresa Y para desenvolver sua biblioteca de componentes, que no mundo BIM também são conhecidas como famílias. O projetista usa estes componentes em seu modelo e o submete a uma simulação de desempenho por meio de uma ferramenta, comercializada na modalidade de softwares como serviço pelo fornecedor Z. Posteriormente, esse mesmo projetista usa o resultado dessa simulação, toma decisões e entrega o seu projeto. O seu cliente, uma construtora, executa o projeto e constrói a edificação, entregando-a para a incorporadora. Cenário complexo? Não, esse será nosso dia a dia com a introdução do BIM.

Vamos imaginar que a edificação não se comporte como o esperado; o ciclo de responsabilização vai seguir naturalmente até chegar ao autor do projeto, caso o problema venha a ser decorrência de uma falha no projeto. Ao chegar ao projetista, ele não terá mais suas memórias de cálculo para se defender. Ele fará uma primeira verificação se a falha foi proveniente da simulação. Em caso positivo o repasse da responsabilidade ficará mais simples, pois foi um serviço prestado; independentemente do meio, a empresa de tecnologia é responsável pelos problemas e prejuízos de sua imperícia.

Caso a empresa de software como serviço prove que seu produto fez exatamente o que estava se propondo a fazer, o projetista tem como segundo passo buscar a explicação nos componentes. Se a simulação de nosso exemplo fosse algo relativo à propriedade de componentes isolados, depois de achar onde está o problema, ele teria que provar que o componente usado não foi maculado, que não teve as propriedades alteradas. Como passo final, teria que validar as cláusulas jurídicas que estavam vinculadas aos sites e que ele aceitou antes de "baixar" os componentes. O cenário piora se envolver componentes genéricos baixados em coletâneas. Fica praticamente impossível, no caso de simulações como avaliações de acústica e termodinâmica, em que tudo que está no modelo pode influenciar. Nesses casos, a discussão regride e passa a ser descobrir qual elemento é o que está com as propriedades equivocadas.

Os fabricantes, mesmo correndo um risco pequeno, podem ter grandes prejuízos de imagem e prejudicar os seus clientes em uma ação que tem como iniciativa apenas ajudar. Ao contratar bureaus de modelagem estrangeiros ou não se preocupar em formalizar cláusulas específicas nos contratos, praticamente perdem a possibilidade de repassar a responsabilidade caso elas venham a ser devidas.

Com essa insegurança, será que as novas bibliotecas precisarão ter um responsável técnico para serem publicadas? Usá-las pode ser um "tiro no pé"? Como usá-las de maneira confiável? As empresas que estão publicando suas bibliotecas estão se preocupando com isso? Os projetistas e construtoras já se deram conta?

Para resolver essa série de questões, um primeiro passo já foi dado; há grupos de trabalho da ABNT que atuam em vários aspectos na normatização desses componentes, com estado muito avançado de discussão. Isso, com toda a certeza, vai ajudar a identificar onde e como usar os componentes. Neste momento, a grande maioria das empresas ainda está em uma fase muito inicial do processo BIM, dando os primeiros passos na modelagem. As respostas definitivas para as questões colocadas no parágrafo acima ainda não foram forjadas pelo mercado, porém é fundamental que sejam pensadas além do departamento técnico, além da empolgação inicial e natural que a tecnologia traz.

Marcus Granadeiro presidente da Construtivo.com, empresa de fornecimento de solução para gestão e processos de ponta a ponta para o mercado de engenharia

 

Destaques da Loja Pini
Aplicativos