Norma de desempenho estimula mudanças na grade curricular e na estrutura dos cursos formação de engenheiros e arquitetos | Construção Mercado

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NBR 15.575

Norma de desempenho estimula mudanças na grade curricular e na estrutura dos cursos formação de engenheiros e arquitetos

Por Luis Ricardo Bérgamo
Edição 155 - Junho/2014
 

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Para contemplar os requisitos da NBR 15.575 - Edificações Habitacionais, a chamada Norma de Desempenho, em vigor desde julho de 2013, as faculdades de engenharia e arquitetura têm criado novas disciplinas e atualizado o conteúdo de seus cursos. Prática comum entre as instituições de Ensino Superior dessas áreas tem sido diluir os requisitos da norma em diversas disciplinas ao longo de toda a graduação. Outra estratégia é a criação de disciplinas e cursos específicos, incluindo na pós-graduação, para abordagem aprofundada das diretrizes.

De acordo com o professor de Engenharia de Materiais de Construção Civil, do Centro Universitário da FEI, Rui Barbosa de Souza, o aproveitamento dos conteúdos relacionados ao desempenho está relacionado à organização da formação acadêmica. Segundo conta, parte desses cursos dedica-se à formação básica em ciência pura. Ou seja, disciplinas básicas, como física e cálculo.

Simultaneamente, desde o princípio, o aluno tem contato com conteúdo específico, voltado ao ensino das ferramentas utilizadas no exercício da profissão. É no âmbito dessas disciplinas, acredita Souza, que o aluno de graduação deveria entrar em contato com os requisitos da NBR 15.575, logo no começo da graduação. "O aluno fica consciente de que tudo aquilo que ele vai aprender é para que, no final, sejam atendidas as premissas de desempenho da edificação", diz.

Acervo pessoal
"Inovação e criatividade passam a ser componentes fortes do perfil profissional visado"
Francisco Ferreira Cardoso chefe do Departamento de Engenharia de Construção Civil e coordenador do curso de Engenharia Civil da Poli-USP

Formação pontual
Em todo caso, conforme lembra Francisco Ferreira Cardoso, chefe do Departamento de Engenharia de Construção Civil e coordenador do curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), uma das características dos cursos de engenharia civil é a formação de profissionais generalistas, com competências em diversas áreas - estruturas, geotecnia, hidráulica, saneamento, transportes etc. Se, por um lado, a generalização forma profissionais com conhecimentos mais amplos, por outro impede o aprofundamento dos conceitos, pondera ele.

Ao analisar o conteúdo da NBR 15.575, Cardoso observa que o texto trata de conteúdos como desempenho estrutural, desempenho térmico e acústico, durabilidade e manutenibilidade, por exemplo. De acordo com ele, tais conteúdos são abordados nos cursos de engenharia civil. Já outros assuntos específicos, como segurança contra incêndio, segurança no uso e na operação, estanqueidade, saúde, higiene e qualidade do ar e adequação ambiental devem encontrar espaço em cursos extracurriculares ou disciplinas optativas. Alguns conteúdos, por sua vez, relacionam- se mais aos cursos de arquitetura, como desempenho luminoso, funcionalidade, acessibilidade e conforto tátil, visual e antropodinâmico.

É por isso que, para Souza, da FEI, a NBR 15.575 deveria ser também objeto de uma disciplina que discutisse isoladamente seu conteúdo, apresentando os requisitos de cada sistema separadamente. Com o conteúdo diluído pelo curso, diz ele, o aluno não atenta para a importância do tema.

Para Cardoso, entretanto, cabe ao aluno definir como complementar sua formação. Assim, ele lhes recomenda ampliar a formação generalista, cursando disciplinas fora da engenharia civil ou da arquitetura, e também investir em formação especializada, aprofundando- se em temas relacionados à norma. Neste caso, explica, além de optativas voltadas à especialização almejada, é útil voltar o trabalho de conclusão de curso a temas relacionados a desempenho.

Abordagem sistêmica

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No caso do curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli- USP), além da atualização dos conteúdos para atender à NBR 15.575, há um movimento de reformulação total do curso. É o que conta Francisco Ferreira Cardoso, chefe do Departamento de Engenharia de Construção Civil e coordenador do curso de Engenharia Civil da Poli-USP.

Para ele, não se trata apenas de criar novas disciplinas ou de rever o conteúdo das existentes, mas também de mudar a maneira de ensinar e aprender a engenharia. Um dos caminhos, exemplifica, é o reforço de estratégias de aprendizagem ativas, como a Aprendizagem Baseada em Problema ou em Projeto (PBL) e o Design Thinking. "Isso confere ao aluno capacidade de utilizar o conteúdo aprendido em situações novas, concretas e de caráter sistêmico, como é o caso do enfoque de desempenho", acredita.

Nessa abordagem, continua o professor, a competência profissional do futuro engenheiro civil formado pela Poli-USP decorre da união dos conhecimentos técnicos às habilidades e atitudes do profissional. Além disso, conhecimentos nas áreas econômica, ambiental, social, política e ética trariam ganho profissional, pois, segundo ele, "inovação e criatividade passam a ser componentes fortes do perfil profissional visado".

 

Cadú Coppini
"Ao apresentar a norma logo no começo da graduação, o aluno fica consciente de que tudo aquilo que ele vai aprender é para que sejam atendidas as premissas de desempenho"
Francisco Ferreira Cardoso chefe do Departamento de Engenharia de Construção Civil e coordenador do curso de Engenharia Civil da Poli-USP

Medidas paliativas
Em paralelo, alguns professores têm introduzido o conteúdo da norma em suas disciplinas, enfatizando os aspectos de desempenho. Souza explica que as alterações nas disciplinas existentes consistiram na incorporação do conteúdo da norma, apresentando os níveis de desempenho desejados e exigindo que os alunos os atendam em suas atividades. Souza ainda acrescenta que o tema sustentabilidade favorece o ensino sobre desempenho, pois envolve conforto, segurança e satisfação do usuário.

Na Poli-USP, explica Cardoso, várias disciplinas tradicionais sofreram ajustes no conteúdo para adequação à norma de desempenho, como as de Materiais de Construção, Sistemas Prediais e Tecnologia da Construção de Edifícios. Houve, ainda, a criação de matéria obrigatória, de Física das Construções, para reforço à experimentação, com medições em campo relacionadas a conforto térmico e acústico.

Outras três disciplinas optativas contemplam os requisitos da NBR 15.575: Inovação Tecnológica na Produção de Edifícios, Simulação Computacional de Desempenho Energético do Edifício e Projeto de Estruturas em Situação de Incêndio. Para os próximos anos, três outras disciplinas estão sendo pensadas: Durabilidade e Gestão da Vida Útil no Ambiente Construído, Gestão de Água e Energia e Projeto de Edifício.

Na pós-graduação da Poli-USP, a norma é abordada em disciplina específica sobre Desempenho e outra sobre Inovação Tecnológica. Este último tema está presente também na especialização. Na área de extensão, são oferecidas disciplinas tratando de temas como manutenção, avaliação pós-ocupação, acústica, tecnologia de materiais e durabilidade e estruturas em situação de incêndio.

The Performance Code is Being Addressed in Universities
To address the requirements from the NBR 15,575 - Housing Buildings, known as the Performance Code (Norma de Desempenho in Portuguese), in force since July 2013, engineering and architecture academies have created new disciplines and updated the content of their courses. It has been a common practice, amongst institutions of higher education in these areas, to dilute the requirements from the code in various disciplines throughout the curriculum. At Poli-USP, one of the main civil engineering colleges in Brazil, several traditional disciplines were adjusted to fit to the performance code in content, such as the ones regarding Building Materials, Building Systems and Building Construction Technology. There was even the setting up of a new mandatory subject, Building Physics, for strengthening experimentation with field measurements related to thermal and acoustic comfort.

 

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