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O baixo crescimento do PIB e os indicadores macroeconômicos vêm afetando a construção civil, mas isto não significa que o setor esteja diante de uma crise

Por Roberta Prescott
Edição 156 - Julho/2014

No fim de maio, a divulgação do crescimento de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre de 2014 desanimou ainda mais o mercado, já frustrado com o ritmo mais lento do que o esperado. Para o setor da construção, a conjuntura pouco estimulante traduziu-se no menor nível de expectativa desde dezembro de 2009, de acordo com levantamento feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O indicador, que mede a perspectiva sobre o nível de atividade dos empresários da construção para os próximos seis meses, ficou em 52,1 pontos. Apesar de baixo, o índice acima de 50 pontos indica empresários confiantes - o que mostra que os resultados pouco encorajadores apontam para uma desaceleração, mas não são percebidos como crise na indústria.

"O mercado imobiliário perdeu ritmo, com enfraquecimento nas vendas. Na área de infraestrutura, as concessões ocorreram apenas no fim do ano passado, mas há incentivos para voltar a crescer. O impacto virá a partir do fim deste ano", analisa Ana Maria Castelo, coordenadora de estudos de construção da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Um dos segmentos de maior peso na composição do PIB, o setor da construção civil está sendo negativamente afetado pelos indicadores macroeconômicos brasileiros, como as sucessivas elevações da taxa básica de juros (Selic) e a inflação, muito próxima ao teto da meta para o encerramento do ano. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do mês de maio apresentou variação de 0,46%, ficando 0,21% abaixo da taxa registrada no mês de abril (0,67%). Com isso, a variação de janeiro a maio foi para 3,33%, acima da taxa de 2,88% de igual período de 2013.

Pela primeira vez desde 2010, o PIB do setor da construção cresceu, no ano passado, a taxas menores que o índice nacional - enquanto o PIB nacional cresceu 2,5% em relação ao ano anterior, a construção civil ficou estável no último trimestre e terminou 2013 com um aumento de 1,6% frente a 2012.

O cenário ficou ainda mais difícil no primeiro trimestre deste ano, quando o PIB da construção civil apresentou recuo de 2,3% em relação ao trimestre anterior e caiu 0,9% em comparação ao primeiro trimestre de 2013. Já no acumulado dos últimos quatro trimestres, o PIB nacional cresceu 2,5% enquanto o da construção civil registrou 1,7%.

O sinal de alerta significa que a construção civil deve registrar taxas de crescimento mais comedidas. É consequência do desaquecimento observado desde 2012, quando houve o final do ciclo de obras iniciadas em 2009/2010 e o início das novas obras, tanto residenciais como industriais e comerciais, deu-se em ritmo mais lento. Em 2010, o PIB da construção, de 11,6%, foi o maior registrado na década, mas, a partir de 2011, o setor não conseguiu mais crescer na casa dos dois dígitos.

Marcelo Scandaroli


'O mercado imobiliário perdeu ritmo, com enfraquecimento nas vendas. Na área de infraestrutura, as concessões ocorreram apenas no fim do ano passado, mas há incentivos para voltar a crescer. O impacto virá a partir do fim deste ano'

Ana Maria Castelo, coordenadora de estudos de construção da FGV


Visão de longo prazo
As incertezas macroeconômicas que existem hoje afetam o cenário da construção, estruturado em ciclos de negócios extensos. "A atividade da construção é de longo prazo. As obras que vemos hoje nas ruas e que sustentam o nível de emprego são reflexos de decisões tomadas há três anos", explica Eduardo Zaidan, responsável pela área de economia do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP).

O órgão revisou a perspectiva de desempenho do setor em 2014. Inicialmente, o SindusCon-SP estimava que o PIB da construção aumentaria 2,8% em 2014, mas agora acredita que o índice ficará entre 1% e 2%. Uma das justificativas foi o ritmo baixo de aumento do emprego, que subiu 0,14% em abril deste ano em relação a março.

Zaidan qualifica o momento atual do mercado da construção como morno. "Mesmo assim, o emprego está se mantendo alto." No que se refere aos ganhos salariais, em São Paulo os reajustes foram de 7,32% para trabalhadores que recebem salário mensal de até R$ 8.000,00; e de 5,82% para os que recebem acima de R$ 8.001,00. O especialista descarta risco de greve no setor.

Para João da Rocha Lima Jr., professor titular de Real Estate da Escola Politécnica da USP, o segmento residencial deve ficar estável, sem grande depressão ou aquecimento.


PIB BRASIL X PIB CONSTRUÇÃO CIVIL
FONTE: CBIC
PIB do setor da construção cresceu, no ano passado, menos do que o PIB nacional

Se o ano de 2014 está se mostrando de incertezas, os especialistas acreditam que 2015 será um período de ajustes, independentemente de quem estará à frente da presidência do Brasil. "Estamos com juros altos, crescimento econômico baixo e inflação subindo. Precisa ajustar, conter gastos e melhorar o humor dos empresários", atesta Zaidan. Já o professor Rocha Lima Jr. acredita que a recuperação pode ser difícil e, por isso, as famílias podem ter receio de comprar habitação neste período. "Elas vão retardar [a aquisição], mas não cancelar."

Uma das questões que pode inibir o crescimento do setor é a limitação de recursos, tanto de mão de obra qualificada, como financeiro. Falta formação técnica e especializada. Além disto, outro desafio do setor é a melhoria da produtividade, que passa por enxugar custos, investir em metodologias e processos e incorporar mais inovação tecnológica.

Com a conjuntura pouco estimulante, será crucial para as empresas definir o tamanho ideal de suas operações, seu foco de atuação no mercado e seu planejamento estratégico, no que tange a lançamentos e ao gerenciamento de estoques.


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