Impermeabilização flexível | Construção Mercado

Debates Técnicos

Impermeabilização flexível

Falta de informação sobre comportamento e desempenho dos materiais, além de fiscalização deficiente dos serviços executados emperram ampla difusão desses sistemas

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 156 - Julho/2014
Marcelo Scandaroli

Impermeabilizantes flexíveis são indicados para estruturas sujeitas a movimentações e variações térmicas, tais como lajes, banheiros, terraços e reservatórios elevados. Há, no entanto, muita confusão no mercado envolvendo o uso desses impermeabilizantes. Segundo fabricantes e especialistas, muitas construtoras ainda não conhecem as diferenças entre sistemas flexíveis e cimentícios, também conhecidos como rígidos e usados em estruturas menos sujeitas a variações térmicas, como fundações, pisos internos, contenções e piscinas enterradas. "A durabilidade dos sistemas é bastante diferente; os flexíveis estão sujeitos a ciclos de alongamento e contração; os cimentícios, não", orienta Flávio de Camargo Martins, gerente técnico e de marketing da Denver Impermeabilizantes. "Os cimentícios são mais baratos e fáceis de serem aplicados. Por isso, há a tendência de usá-los de modo indiscriminado", afirma a engenheira Maria Amélia Silveira, consultora técnica do Instituto Brasileiro de Impermeabilização (IBI).

De acordo com o projetista Sérgio Pousa, diretor da Proiso Projetos e Consultoria, também é controversa a aplicação apenas em áreas molhadas, como boxes e a região dos ralos de banheiro, excluindo seu uso nas áreas laváveis. "Algumas construtoras não estão impermeabilizando as áreas internas como deveriam. Banheiros, áreas de serviço e terraços devem ser totalmente impermeabilizados, e não apenas boxes ou ralos", alerta.

Para Leandro Francischetti, engenheiro da área de assistência técnica e desenvolvimento tecnológico da Tarjab, a decisão de eliminar a impermeabilização dessas áreas não acarreta prejuízos ao desempenho. "Pelo nosso histórico de assistência técnica, percebemos que a área fora do boxe é mais sujeita a problemas, por isso temos condicionado o morador a não usar água nela, eliminando os ralos fora do boxe", justifica. Os fabricantes, porém, alertam que a ausência de impermeabilização nessas áreas, aliada à má execução, tem gerado aumento na procura por reparações. "Tanto é que o mercado para produtos de reparo hoje é muito grande", lembra Carolina Martinez Rojas, coordenadora da área de tecnologia e desenvolvimento de produtos da Basf.

Boas práticas
O mercado oferece ampla variedade de sistemas flexíveis, como mantas asfálticas, membranas asfálticas moldadas in loco (a quente ou a frio), mantas de Pead, PVC e PDM e membranas de poliureia, poliuretano e de resinas acrílicas. A escolha do sistema, preconiza a NBR 9.575 - Impermeabilização - Seleção e Projeto, deve ser orientada por projeto, incluindo estudo preliminar com caracterização das áreas e respectivas interferências, descrição dos tipos de impermeabilização aplicáveis, quantitativos, desempenho e estimativa de custos.

Outro ponto importante é garantir a compatibilização entre projetos de arquitetura, estruturas, sistemas prediais e impermeabilização, evitando improvisos durante a aplicação. "A maioria dos problemas de execução está associada à inexistência ou à deficiência do projeto executivo. Detalhamentos, especificações e memorial descritivo são dados fundamentais para a adequada instrução da equipe aplicadora e mesmo para o controle e inspeção dos serviços pela fiscalização da obra", lembra Agilulpho Candido Dias Neto, engenheiro do setor de inspeções prediais do Grupo Falcão Bauer.


Sem patologias
Quando corretamente projetada e executada, a impermeabilização impede a instalação de processos de corrosão na estrutura, contribuindo para a estabilidade estrutural da edificação. Segundo especialistas, seu custo representa de 1% a 2% do custo global da obra. No entanto, refazer o serviço é bastante oneroso, podendo chegar a até cinco vezes o valor inicial. Dentre as patologias mais comuns oriundas da falta, deficiência ou degradação de sistemas impermeabilizantes, estão infiltrações, eflorescências e oxidação das armaduras. "Consequentemente tem-se o comprometimento da durabilidade das edificações e a necessidade precoce de manutenções corretivas", lembra Dias Neto.

O preparo correto do substrato que receberá o sistema corresponde a mais de 60% do sucesso da impermeabilização. Por isso, antes de iniciar a aplicação, as superfícies devem estar livres de nichos de concretagem e com juntas e fissuras devidamente tratadas. Outro ponto importante é garantir a correta execução dos arremates do sistema junto a rodapés, ralos, drenos e tubos emergentes. "Esses ainda são os principais pontos de falhas e de erros em decorrência da falta de cuidados na aplicação", observa Dias Neto, lembrando que as juntas de dilatação estrutural também são suscetíveis a problemas. "Nestes pontos o sistema deve acompanhar as movimentações estruturais decorrentes de gradientes térmicos", completa.

ENTREVISTA - AGILULPHO CANDIDO DIAS NETO

Desempenho avaliado

Quais são os ensaios utilizados para controle de qualidade e desempenho de impermeabilizantes flexíveis?
Os ensaios mais corriqueiros realizados pelo Laboratório de Elastômeros do Grupo Falcão Bauer são os de tração, absorção de água, rasgamento e flexibilidade a baixa e alta temperaturas, que avaliam o atendimento do material ou produto às prescrições normativas.

Eles garantem avaliar se o serviço foi bem executado?
Não. Estes ensaios tecnológicos garantem apenas que o material ou produto atendam às propriedades físicas estabelecidas em normas técnicas para sua produção e comercialização. A garantia de que o serviço foi adequadamente executado depende, dentre outros fatores, do correto preparo do substrato (base de aplicação do material ou produto), bem como do correto preparo e aplicação do produto, etapas que devem ser controladas e inspecionadas. Além do controle e inspeção dos serviços, a NBR 9.574 - Execução de Impermeabilização também recomenda que, após a execução da impermeabilização, seja efetuado ensaio de estanqueidade com água limpa, com duração mínima de 72 horas para verificação de falhas na execução.

A entrada em vigor da NBR 15.575 (Norma de Desempenho) contribuirá para a melhoria da execução do sistema?
A NBR 15.575, em seu item 10 (que trata da estanqueidade das edificações), recomenda que sejam atendidos os parâmetros das NBR 9.574 e NBR 9.575 Impermeabilização - Seleção e Projeto, que estão em vigor. Esperase que, com a consolidação e exigências da recente Norma de Desempenho, as normas técnicas já existentes passem a ser cumpridas em sua íntegra.

Acervo pessoal

'A garantia de que o serviço foi adequadamente executado depende, dentre outros fatores, do preparo do substrato, bem como do preparo e aplicação do produto, etapas que devem ser controladas e inspecionadas'
Agilulpho Candido Dias Neto, engenheiro do setor de inspeções prediais do Grupo Falcão Bauer


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