Materiais e sistemas que podem aumentar a produtividade ainda são pouco utilizados pelas construtoras. Entenda o motivo e conheça algumas tecnologias | Construção Mercado

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Materiais e sistemas que podem aumentar a produtividade ainda são pouco utilizados pelas construtoras. Entenda o motivo e conheça algumas tecnologias

Por Maryana Giribola
Edição 158 - Setembro/2014
Franck Boston/Shutterstock

O crescimento desordenado do mercado imobiliário anos atrás aumentou os custos com mão de obra além das expectativas. Com isso, a busca por tecnologias que prometiam diminuir o contingente de operários em obra também começou a crescer entre as empresas do setor. No entanto, o uso de muitas soluções ainda não está bem difundido entre as construtoras. "Os métodos estão disponíveis, mas ainda dependemos muito da mão de obra terceirizada, que não entende o ganho em sair dos métodos construtivos tradicionais porque cobra por metro quadrado realizado", conta Milton Bigucci Junior, diretor técnico da construtora MBigucci.

Além dos problemas com mão de obra terceirizada, é preciso vencer outras barreiras para que essas tecnologias se desenvolvam nos projetos. Um motivo muito apontado pelas empresas consultadas pela reportagem é que, muitas vezes, são analisados somente os custos, e não os benefícios indiretos. "Comparar tecnologias convencionais e inovadoras pelo custo do produto por metro quadrado não leva a conta nenhuma", alerta Eduardo Frare, diretor de construção do Parque da Cidade, da Odebrecht Realizações.

Para Luiz Henrique Ceotto, diretor de Design & Construction da Tishman Speyer, o nível de industrialização das obras nas construtoras de pequeno ou grande porte está no mesmo patamar. Nas empresas de menor porte, a cultura costuma barrar a introdução dessas soluções pela falta de costume em mensurar a produtividade de cada etapa da obra. Por outro lado, algumas acabam notando os benefícios justamente pelo seu porte reduzido. Fabiana Ballai, da área de inovação e tecnologia do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), afirma que, "geralmente, a liderança dessas empresas está mais ligada diretamente ao negócio. Então, elas acabam enxergando fatores como o menor desperdício e geração de resíduos, além dos ganhos de prazo".

Mas para a industrialização dos processos construtivos acontecer de fato, a iniciativa não deve partir somente das construtoras. "Não adianta imaginarmos que essas empresas vão treinar mão de obra, porque é impossível que elas dominem todos os processos construtivos", acredita Ceotto. O caminho que algumas construtoras têm seguido é contratar fabricantes de insumo que treinaram mão de obra e investiram em equipamentos para oferecer o serviço a um preço reduzido por metro quadrado. Isso já acontece em alguns setores, como no caso da argamassa aplicada por meio de projeção.

Hoje em dia, a indústria de materiais homologa e capacita empresas que podem aplicar seus produtos. Por isso, a dica é contratar e fazer com que esses empreiteiros trabalhem em parceria com as construtoras. A escolha do fornecedor, portanto, é tão importante quanto a escolha do material ou sistema em si e, nessa hora, vale contratar empresas que tenham visão sistêmica de engenharia, aconselha Ceotto.

Viabilidade estudada
O primeiro ponto a ser observado para checar a viabilidade de sistemas construtivos e materiais inovadores é o porte do negócio. Em edifícios residenciais, por exemplo, a antecipação da entrega pode não ser interessante para o negócio, já que os compradores geralmente parcelam as dívidas e o encurtamento dos prazos diminuiria o poder de compra daqueles que optam pelo financiamento. Por isso, o mercado ainda foge de soluções que aumentem muito a produtividade nesse tipo de obra, como os pré-fabricados em concreto.

O caminho natural é que o emprego de soluções pré-fabricadas comece pelos empreendimentos industriais e comerciais, que precisam de entregas mais antecipadas para que o retorno aos acionistas também aconteça mais rápido. "Nos últimos cinco a dez anos, projetamos 15 shoppings em alvenaria convencional. Hoje em dia não temos mais nenhum projeto com essa solução. A alvenaria foi retirada da fachada de shoppings, dando lugar a fechamentos industrializados, como fachadas de vidro unitizado ou ventiladas e fechamentos em Light Steel Frame (LSF) com placa cimentícia", conta Jonas Silvestre Medeiros, diretor da Inovatec Consultores.

Divulgação: MBigucci



'Os métodos estão disponíveis, mas ainda dependemos muito da mão de obra terceirizada, que não entende o ganho em sair dos métodos tradicionais porque cobra por metro quadrado realizado'

Milton Bigucci Junior
diretor técnico da construtora MBigucci

Com as necessidades de negócio definidas, o próximo passo é estudar a viabilidade por meio de pesquisas e conceber projetos bem estudados e, principalmente, compatibilizados. Por isso, vale trazer todos os profissionais envolvidos no projeto para estudar as alternativas com antecedência. "É fundamental que, entre outras coisas, haja a obediência da norma de coordenação modular, a NBR 15.873:2010", alerta Ceotto. Ele explica que, caso ela não seja bem seguida, corre-se o risco de que, em vez de ganhos, a empresa enfrente muito desperdício e baixa produtividade.

A logística é outro ponto que carece de atenção. Os espaços de armazenamento, a movimentação de cargas e a localização da obra implicam diretamente a viabilidade desses sistemas. "A logística é o coração de todo esse estudo que tem de ser feito. Podemos chegar a uma solução perfeita, mas sem um bom plano de ataque a viabilidade da alternativa vai por água abaixo", alerta Frare, da OR.

Soluções produtivas

OR usa sistemas pré-moldados e reduz quadro de operários

Divulgação: OR

O grande contingente de trabalhadores no canteiro do Parque da Cidade, da Odebrecht Realizações Imobiliárias (OR), poderia ser maior se não fossem os sistemas construtivos adotados, como painéis pré-fabricados para fachadas, sistema unitizado de caixilhos e vidros, lajes alveolares e sistemas pré-moldados para estrutura. "A nossa estimativa inicial, pensando em sistemas convencionais, era algo em torno de quatro mil homens trabalhando nos canteiros. Com os sistemas pré-fabricados, estimamos algo em torno de 2,5 mil operários", conta Eduardo Frare, diretor de construção do Parque das Cidades, da Odebrecht Realizações. Mas para fazer com que os sistemas realmente alcançassem uma boa produtividade, a construtora teve de investir em equipamentos. "Ao trabalhar com peças pré-moldadas, a construtora retira um grande contingente de mão de obra e, consequentemente, depende mais de equipamentos pela necessidade de alta movimentação de carga", explica Frare. Só na execução das lajes, o ganho foi de um pano por mês. No sistema convencional, Frare estima que não seria possível executar quatro lajes em um mês. Com o sistema nervurado, foi possível realizar uma por semana. Com relação aos custos, o diretor estima uma redução de 2% só nessa etapa.


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