Mecanização depende não só de investimento em equipamentos, mas de projeto logístico e racionalização do canteiro | Construção Mercado

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Mecanização depende não só de investimento em equipamentos, mas de projeto logístico e racionalização do canteiro

Por Gisele Cichinelli
Edição 158 - Setembro/2014
LANTERIA/Shutterstock

O uso de equipamentos de movimentação na construção civil (sobretudo gruas, elevadores de cremalheira e plataformas de trabalho aéreo) aumentou significativamente nos últimos dez anos. Porém, de acordo com especialistas, esse dado não reflete uma maior industrialização do setor. A maior parte das máquinas existentes no mercado ainda opera nos canteiros das grandes construtoras e incorporadoras, em geral, empresas que já utilizam diversas ferramentas de gestão, projeto e processos construtivos visando a racionalizar suas obras e já compreendem as vantagens financeiras e econômicas do uso desses equipamentos. Para aumentar a produtividade, essa é uma importante barreira a ser superada.

"As pequenas e médias construtoras, na sua grande maioria, ainda não fazem uso desses equipamentos. Há muito empirismo, muita repetição de modelos, sem preocupação alguma com produtividade", explica Nilton Nazar, professor do Instituto Mauá de Tecnologia. Para o engenheiro, há uma distinção clara entre os segmentos de obras residencial e industrial no tocante ao planejamento de canteiro. "Nos setores industrial e comercial, o uso de peças pré-moldadas, que condicionam o emprego de máquinas de movimentação, é comum, enquanto as edificações residenciais ainda são construídas de modo artesanal", lembra.

Além de disseminar o uso de equipamentos nas empresas de pequeno e médio porte, outro desafio do mercado é organizar dados e números consolidados, que comprovem a produtividade gerada pela mecanização e, consequentemente, aumentem a percepção do construtor quanto à importância desse item. De acordo com pesquisas recém-divulgadas pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e pela EY, que analisam os desafios e tendências da construção civil nos próximos anos, o emprego de equipamentos ainda é um dos itens com menor relevância quando o assunto é tecnologia para aumentar a produtividade e competitividade das empresas. "Esse dado surpreende, pois a maior parte das empresas ainda não consegue perceber a relação entre custo e benefício desse investimento", acredita Roberto da Cunha, chefe do Núcleo de Projetos Especiais em Construção Civil do Senai/RJ.

"Há um gargalo gigante no tocante ao planejamento e à gestão, hoje desafios maiores do que equipamentos, cuja oferta já está equalizada. O ideal, vale lembrar, é discutir equipamento na etapa de projeto, mas poucas empresas começam suas obras com antecedência", completa Paulo Carvalho, diretor de gruas da Associação Brasileira dos Locadores de Equipamentos (Alec), observando que os consultores de produtividade têm se tornado figuras fundamentais para maior difusão da mecanização. "Esses profissionais podem ser os maiores responsáveis por levar essa cultura para empresas de menor porte", analisa Carvalho.

Vantagens
Além de reduzir a movimentação de operários, a mecanização pode melhorar a qualidade do produto (pois proporciona menos variabilidade de execução) e ainda permitir a adoção de novos sistemas construtivos na obra, já que os equipamentos movimentam cargas maiores. Uma das suas maiores vantagens, no entanto, é a rapidez conferida à execução. "Os equipamentos de movimentação nos garantem pontualidade no cumprimento do cronograma de obra, sem elevar o custo indireto, além de redução do número de operários no canteiro", explica Marcelo Pulcinelli, diretor de engenharia da Matec.

Como exemplo, o engenheiro compara as plataformas de trabalho aéreo, que dispensam a etapa de montagem, com os andaimes, que exigem de cinco a oito operários e algumas horas na sua montagem. "As plataformas levam apenas 40 segundos nas operações de subida e descida", observa, lembrando que a partir de 2 m de altura a produtividade cai consideravelmente. "Há uma série de entraves relacionados à segurança do trabalho, como necessidade de montagem de guarda-corpos e cabos de segurança", lembra.

No caso dos elevadores de cremalheira, optar por máquinas mais velozes (45 m/min ou 60 m/ min) pode implicar uma redução de 30% a 40% do quilo transportado, em comparação com as máquinas menos velozes (30 m/min). "Prova que o uso de máquinas com maior performance impacta diretamente na produtividade", observa Carvalho.

A limitação de modelos e o preço dos equipamentos de grande porte são apontados como um dos maiores obstáculos para a difusão das máquinas nos canteiros. "Hoje usamos tudo o que o mercado nacional nos oferece, mas o leque de opções é restrito, se comparado aos mercados europeu e norte-americano", conta Pulcinelli.

Para Sérgio Fernando Domingues, diretor técnico da Tarjab, empresa que recorre a equipamentos de transporte vertical como minigruas e elevadores de cremalheira, a tendência natural é que o uso desses equipamentos aumente, sobretudo pela complexidade cada vez maior das obras, a necessidade de redução de prazos e de otimização da mão de obra. Ele também aponta, no entanto, a variável custo como primeira barreira a ser vencida para que a empresa amplie o uso, seguida pela falta de técnicos qualificados para realizar a manutenção preventiva e corretiva necessárias nestes equipamentos dentro dos canteiros das obras.

Fator custo
Quando o assunto é custo, os fornecedores se defendem, alegando que, comparado aos países que produzem equipamentos de primeira linha e alta tecnologia embarcada, os custos operacionais chegam a ser 45% superiores no Brasil. "Se compararmos com os países asiáticos, a diferença aumenta consideravelmente. Equipamentos produzidos na Ásia custam apenas 40% dos produzidos na Europa e Estados Unidos. Com impostos que pagamos para importar, chegam aqui custando de 55% a 65% do custo de um similar nacional", avalia Fernando Forjaz, presidente da Alec.

No setor de gruas e cremalheiras, especificamente, os custos podem chegar a 70%, fator que pressiona os preços de locação e venda no mercado nacional. Já as plataformas de trabalho aéreo, por exemplo, podem custar até 40% a mais do que seu valor original.

"Com a baixa remuneração em algumas regiões, é mais barato usar mais mão de obra que comprar um equipamento, mesmo que a produtividade e a qualidade sejam menores. Os salários no Nordeste, por exemplo, são bem menores, mas o preço de venda dos equipamentos é equivalente ao restante do País", relata Norwil Veloso, consultor de equipamentos.

A falta de fornecedores e mão de obra para manter e operar os equipamentos fora dos grandes centros urbanos também é outro gargalo. Além disso, há a necessidade de aculturar os subempreiteiros a essa nova realidade de mercado. "O construtor contrata o equipamento e o benefício é do subempreiteiro, que não reavalia os seus preços praticados", observa Ubiraci Espinelli Lemes de Souza, diretor da Produtime Gestão e Tecnologia e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

No canteiro
Do ponto de vista econômico, a correta utilização de equipamentos pode proporcionar redução do número de operários nos canteiros de obras e, consequentemente, os custos com mão de obra. Espinelli lembra que um terço do tempo do trabalhador no canteiro é gasto com movimentação (dele mesmo e de materiais).

No entanto, a mecanização deve ser avaliada caso a caso. Para garantir produtividade máxima dos equipamentos é fundamental contar com um projeto de canteiro, contendo o plano de ataque, estudo da macrologística, do layout da obra em todos os momentos de execução e um microplanejamento de cada serviço a ser executado. "Em algumas situações, o equipamento pode trazer poucos resultados", conta o especialista, lembrando que para cada situação há diversas soluções possíveis. "É preciso levar em conta a relação entre custo e benefício, velocidade, segurança proporcionada aos trabalhadores e a qualidade proporcionada ao produto final antes de escolher os equipamentos ideais", observa.


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