Portas de madeira | Construção Mercado

Debates Técnicos

Portas de madeira

Com criação de norma técnica, fabricantes esperam elevar desempenho - mas qualidade depende da correta especificação dos produtos

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 159 - Setembro/2014
Adami/vert/Abimci
Produtos devem cumprir requisitos da norma de portas de madeira para edificações

A qualificação e a luta por preços equilibrados têm sido as principais bandeiras do setor de portas prontas de madeira nos últimos anos. De acordo com especialistas ouvidos no debate técnico promovido pela Construção Mercado, o mercado apresenta variação de preços muito grande, por conta da tradicional ausência de barreiras técnicas. Com a entrada de players exportadores no mercado nacional, surgiram distorções adicionais na composição dos preços.

"Os preços praticados há cinco anos caíram abruptamente. Para as construtoras, a situação foi cômoda e bastante convidativa, mas a sustentabilidade financeira do setor ficou totalmente comprometida por conta dessas novas condições de mercado", conta Caetano Balvedi Neto, vice-presidente coordenador do comitê de portas da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) e diretor da Sincol.

Roberto Pimentel, diretor técnico do comitê de portas da Abimci e diretor da Multidoor, lembra que a falta de padronização das obras brasileiras pode tornar o produto até 50% mais caro, devido à necessidade de reposições, retrabalhos, desperdício e custo fixo com instaladores que chegam a ficar até seis meses dentro da obra, quando deveriam ficar apenas 30 dias. "Esses custos são invisíveis e não foram computados por essas empresas, que trouxeram para o Brasil o preço de um produto destinado a uma obra padronizada. Aqui, a porta pronta é um produto feito sob medida, fator que influi no seu preço final". Pimentel aposta, no entanto, que a tendência é que o cenário se reverta, com a saída das empresas não especializadas do mercado.

Programa de certificação
A julgar pelos esforços do Programa Setorial da Qualidade de Portas de Madeira para Edificações (PSQ-PME), o cenário tende a mudar gradativamente. O destaque é a certificação das portas de madeira para edificações, cujo objetivo é auxiliar profissionais de suprimentos na seleção de fornecedores, já que as indústrias certificadas terão seus produtos ensaiados periodicamente para verificar o atendimento às normas específicas do segmento e à Norma de Desempenho de Edificações (NBR 15.575).

Até abril desse ano, 14 marcas (Álamo, Ecoporta, Eucadoor, Faqueadas, Famossul, FuckSA, Lavrasul, Multidoor, Randa, Salvaro, Seiva Camilotti, Sincol, Teg e Vert), haviam recebido certificação de acordo com a NBR 15.930 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

Especificação e instalação
No mercado brasileiro desde a década de 1990, o kit porta pronta chega à obra com batentes, guarnições, dobradiças e fechaduras, devidamente montado e acabado. Apesar da praticidade, o sistema deve ser montada na fase final da obra, com o piso e o teto já acabados e com a pintura da parede com no mínimo uma demão de tinta. A instalação também deve ser feita sem presença de água na obra, com serviços e tráfego de pessoas reduzido e já com as esquadrias externas, revestimento e soleiras concluídas. Na etapa de execução, os vãos das portas devem ser idealmente executados conforme o projeto, evitando retrabalhos e ajustes que podem onerar os custos do produto e reduzir significativamente a produtividade.

Além de atender ao cronograma de instalação, contar com um projeto executivo e obedecer às dimensões de projeto, também é importante compatibilizar o produto com os demais sistemas para garantir seu bom desempenho futuro. Vale lembrar que o item é considerado um dos campeões de patologias em obra.

O texto, em vigor desde 2011, classifica o produto por desempenho, de acordo com a ocupação e uso, tráfego e tipo de projeto (residencial, comercial, hotelaria e hospital). O mercado oferece atualmente portas para uso interno (usadas para vedar quartos e salas) e externo (usadas quando submetidas à ação de intempéries como as portas de entrada de casa ou de edifícios). Outra classe de portas são as resistentes à umidade, indicadas para banheiros, cozinhas, áreas de serviço e demais locais expostos ao contato com água.

Além de atender à norma, o fornecedor também deve ter certificado de conformidade ABNT e qualificação no PSQ-PME da Abimci.

ENTREVISTA - THIAGO SALABERGA BARREIROS

Performance satisfatória

Como está a qualidade das portas prontas ensaiadas?
É muito difícil falar do mercado como um todo, mas grande parte (cerca de 75%) das folhas de porta do PSQ-PME verificadas até o momento tem obtido resultados que atendem à norma de portas. Isso é uma surpresa muito boa, já que o insumo principal, a madeira, teve de ser mudada de madeira tropical para produto de madeira engenheirado ou painéis reconstituídos de madeira. E também porque a norma entrou em vigor há pouco tempo, em novembro de 2011. Ou seja, os fabricantes tiveram pouco tempo para se adaptar ao novo contexto. Acredito que essa performance foi consequência da seriedade e da importância com que os fabricantes entendem o produto.

Quais têm sido as maiores fontes de patologias?
Uma das patologias mais encontradas no início do trabalho foi relacionada à verificação da resistência ao fechamento brusco, já que após os ciclos, alguns parafusos não permitiam o reaperto. Isto ocorria porque, quando se trabalhava com madeira tropical, mais densa, os parafusos utilizados podiam ter roscas com filetes e passos menores. Em madeiras menos densas ou até mesmo em painéis reconstituídos de madeira, como o pinus e MDF, deve-se trabalhar com parafusos mais longos e passos e filetes maiores. Outro ensaio que costuma ser um divisor de águas é o ensaio de resistência ao impacto de corpo duro, que avalia a interação e resistência da capa com o núcleo. A capa não pode ser um material extremamente rígido nem frágil, deve ser dúctil e o núcleo deve fornecer uma base adequada para não haver mudança drástica de rigidez, assim contribui para que não haja fissuras nesse ensaio.

Foto: Marcelo Scandaroli


'É muito difícil falar do mercado como um todo, mas grande parte (cerca de 75%) das folhas de porta do PSQPME verificadas até o momento tem obtido resultados que atendem à norma de portas'

Thiago Salaberga Barreiros
pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT)

E quanto ao desempenho acústico, os produtos oferecidos no mercado estão aptos a contribuir para atender à Norma de Desempenho de Edificações?
A norma prescreve o desempenho acústico do sistema de vedação vertical no qual se insere a porta. Pode ser com relação à fachada ou com relação ao conjunto de paredes e portas de unidades distintas separadas pelo hall, esse último com critério mais rigoroso, devendo atender à norma com isolação maior ou igual a 40 dB. Para atender a esse critério, como a parede do hall costuma ser pequena, o desempenho do sistema depende muito do desempenho da porta, e para uma porta chegar a 35 dB ou 40 dB não é fácil.

Quais aspectos contribuem para um desempenho acústico superior?
O que costuma ajudar no desempenho acústico das portas é um sistema de vedação entre folha e soleira, conhecido como guilhotina, amortecedores com material resiliente, grande densidade superficial da folha, pressão de fechamento adequada, nenhum desvio de forma, entre outros itens.


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