Para consultor de gestão de obras, pouca coisa mudou no relacionamento entre construtoras e empreiteiras. Falta parceria entre elas e contratação ainda é baseada em preços baixos | Construção Mercado

Entrevista

André Choma

Para consultor de gestão de obras, pouca coisa mudou no relacionamento entre construtoras e empreiteiras. Falta parceria entre elas e contratação ainda é baseada em preços baixos

Por Eduardo Campos Lima
Edição 160 - Novembro/2014
ACERVO PESSOAL




'Continuamos cometendo o erro de esperar que o mercado treine nossa mão de obra. As construtoras querem achar o empreiteiro mais qualificado e bem preparado, mas não investem nisso
'




O cumprimento dos orçamentos projetados passa principalmente por uma boa gestão de obra, que, por sua vez, depende de uma relação saudável entre construtora e empreiteira. Na teoria, as contratantes devem oferecer apoio gerencial às empresas terceirizadas, cuja estrutura, tanto financeira quanto administrativa, em geral é mais frágil. Mas, na prática, não é isso o que ocorre. Muitas vezes, construtoras enxergam na contratação de empreiteiros a chance de reduzir custos e, assim, as contratações são baseadas em preços quase que inexequíveis.

Com o mercado desaquecido, esse problema tem ganhado ainda mais relevância, pois, atualmente, a margem para corrigir problemas com terceirizadas é menor, já que os preços dos imóveis não têm mais o mesmo fôlego de anos atrás. "A empresa não terá margens lá na frente para já começar errando", ressalta André Choma, engenheiro máster da Vale especializado no gerenciamento de obras e diretor de Administração e Finanças do Project Management Institute (PMI) de Minas Gerais.

O resultado são contratações de terceirizadas baseadas cada vez mais em custos apertados, o que contribui para a precariedade das empreiteiras. Essa é uma questão antiga e persistente no setor. "Infelizmente, vejo que o mercado não mudou muito do ciclo de alta para agora", lamenta Choma. Confira a entrevista.

Como o desaquecimento do mercado imobiliário impacta a relação entre construtoras e empreiteiras?
Esse momento é muito crítico para as construtoras, porque acabou o período de alta mais forte. Agora, temos um período de ajuste de mercado. Os preços de venda estão se estabilizando. Nesse período de transição, as empresas veem suas margens reduzidas e a estrutura de custos muito apertada. No processo de contratação, a construtora precisa estar muito segura do resultado que acha factível atingir com aquele empreendimento. Em período de alta, se a empresa erra um pouco na expectativa de venda e o mercado está subindo, ela acaba recuperando isso na frente e pode até ter surpresas positivas. Mas, com o mercado mais estabilizado, como o de hoje, o cuidado precisa ser maior. Não dá para achar que se venderá mais caro do que de fato será possível.

É preciso, então, um planejamento orçamentário mais cuidadoso?
Sim, porque a empresa não terá margens lá na frente para já começar errando. Passa a ser extremamente importante que ela consiga encaixar seus contratos de mão de obra dentro do valor orçado. Essa é uma etapa crítica no atual momento, porque a mão de obra vem de um período de alta. A construtora vai ter que trabalhar mais com seu empreiteiro para ver o que é possível reduzir em termos de consumo de mão de obra e de risco para os dois lados. A construtora pode tentar oferecer também para seu empreiteiro uma margem maior para deixá-lo mais seguro em relação à contratação e, dessa forma, ela não embute uma margem muito grande para risco.

O que os contratantes têm priorizado ao buscar os empreiteiros?
Muitas empresas ainda se fundamentam na ideia de que bons resultados serão provenientes do achatamento extremo de sua estrutura e da transferência de responsabilidade e risco para os empreiteiros. Algumas construtoras contratam os mais baratos, que são aqueles cuja estrutura e capacidade administrativa são menores. Então, há um conflito claro: diminui-se ao máximo a estrutura de gestão para economizar e joga-se essa gestão nas costas de uma equipe que não tem capacidade. O papel da contratante não é transferível. Além disso, a construtora contrata por um preço muito apertado e faz exigências que já se sabe de antemão que a terceirizada não vai conseguir cumprir.

Quais são os desdobramentos disso?
Acaba-se sufocando as equipes no canteiro e o resultado final é um trabalho de má qualidade e de baixa produtividade. Além disso, pode-se gerar grande passivo fiscal e trabalhista, porque a contratante espremeu tanto o subcontratado que ele pode deixar de pagar algum imposto para não quebrar. Mas, a partir do momento que não se cumprem os requisitos legais, tanto trabalhistas como fiscais, a responsabilidade passa a ser do contratante. Infelizmente, vejo que o mercado não mudou muito do ciclo de alta para agora.

Mas o Ministério Público do Trabalho (MPT) tem atuado fortemente na fiscalização de obras, inclusive de grandes incorporadoras. Mesmo assim nada mudou?
Nesse curto prazo, ainda não vi grandes mudanças. Mas, de dez anos para cá, houve melhoras. Vejo essa cultura de gestão sendo puxada mais pelas grandes empresas. Mas percebo que o pequeno e médio construtor ainda continua achando que só sendo grande é que se tem capacidade financeira para investir em gestão. Muitas vezes, eles não enxergam que é a boa gestão que vai trazer resultado, e não o tamanho. O ciclo de alta iludiu muita gente, que ganhou dinheiro mesmo fazendo gestão ruim.

A gestão voltada à produtividade é um problema do contratante?
Muita gente tem a esperança de que o empreiteiro mostre uma maneira melhor, mais rápida e mais segura de fazer o trabalho contratado. Só que a empresa sempre contrata o mais barato, que não tem gestão. O problema é que poucas empresas estão investindo em racionalizar processos construtivos. Algumas das grandes empresas, pelo fato de repetirem processos várias vezes, conseguem ganhar racionalização. As pequenas e médias continuam na mesma toada. Às vezes, a empresa concebe um projeto convencional, sem projeto de instalações complementares, e joga na mão do empreiteiro, achando que ele vai ter técnica diferente ou equipe supereficiente. Na verdade, a tendência é só piorar.

Muitas vezes, há diferentes empreiteiros especializados na obra, o que exige gestão de todas as etapas. Como essa gestão é feita?
Muitas vezes, as construtoras fazem um planejamento prévio muito superficial e quando ele é levado ao canteiro as empresas contratadas batem cabeça. Essa interface entre contratos é função da contratante. Para isso, ela tem que ter definição clara do que faz parte de cada pacote para poder gerir as interfaces entre um pacote e outro, de forma a liberar frentes de trabalho para os demais empreiteiros. Eles precisam da garantia de que um não vai destruir o trabalho do outro. Vejo que isso fica muito relegado aos próprios empreiteiros, porque a construtora não chegou ao nível de planejar e identificar essas fronteiras.

A falta de gestão dos empreiteiros gera ociosidade. Esse é o principal entrave hoje em dia?
Não tenho números, mas minha percepção é de que mudar o planejamento de maneira informal consome mais horas do que tempo ocioso. Porque o tempo ocioso fica muito claro para o gestor e ele tenta agir. Mas o tempo perdido, que ele não enxerga, é o pior de todos. Porque ele está consumindo recursos e não vê que ali tem uma improdutividade muito grande. É como desperdício de material. A hora que você vê a caçamba cheia de material dói no bolso. Mas se for olhar a fachada que tem um emboço de 7 cm em vez de 4 cm, você não sente. Vi a obra de um shopping center em que o pessoal entrou instalando iluminação, ar-condicionado e forro de gesso antes que estivesse concluída a cura do piso. É um claro conflito de frentes de serviço. Eles se preocuparam em proteger o piso como deu, mas quando retiraram a proteção estava tudo arrebentado.


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