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Planejamento estratégico - a realidade de empresas de construção civil de médio porte no Brasil

Por Elisabete Maria de Freitas e Claudio Tavares de Alencar
Edição 160 - Novembro/2014

A tecnologia, a comunicação e os avanços de mercado estão fundamentalmente modificando as perspectivas de tempo, distância e limites espaciais. Especificamente em relação ao setor da construção civil, esses limites atualmente se estendem a um ponto em que uma organização poderia teoricamente participar na elaboração de um projeto ou em uma construção em qualquer lugar do planeta.

Historicamente, a indústria da construção civil divide o mercado em classificações tradicionais como construção pesada, industrial, comercial e residencial. Essa divisão sempre promoveu oportunidades para as organizações de construção civil se manterem em mercados com competidores estabelecidos dentro deles.

[...] Ainda há empresas que têm dificuldade em obter, coordenar e gerir informações juntamente com todos os departamentos

Neste cenário, a competição por organizações de fora desta suposta delimitação se manifesta para as empresas como uma preocupação secundária e a percepção de segurança que se define com os mercados conquistados lidera.

Contudo, as variações e mudanças, sejam estas econômicas ou tecnológicas, tendem a desestabilizar esta condição e a necessidade da sustentação dos negócios, somada à consequente diferenciação da concorrência dentro dos mercados estabelecidos, pressiona para que as empresas construtoras busquem alternativas além destas delimitações supostamente definidas por um mercado tradicional. Os limites aceitos quando há foco somente em um mercado devem ser ultrapassados e permitir às empresas explorarem alternativas para a entrada de receitas e continuidade dos negócios, obtendo-se resultados no patamar desejado.

O conhecimento para identificar, encontrar e perseguir estas oportunidades deve ser desenvolvido como parte de uma estratégia expandida de uma empresa de construção civil. É onde entra o Planejamento Estratégico.

Planejamento e gestão estratégica são processos que se relacionam com tomadas de decisão e ações corretivas que possam promover o entendimento e conhecimento da sistemática de sua própria organização e que as mantenham capazes de sustentar e/ou expandir sua participação no mercado em um cenário cada vez mais competitivo, além de conseguir resultados satisfatórios em operações futuras.

O conceito de estratégia, criado pelos antigos gregos e utilizado no início por organizações militares, foi posteriormente apropriado pelo ambiente de negócios, estando o seu desenvolvimento relacionado com as transformações na sociedade em geral e em particular com o universo empresarial.

O pensamento estratégico evolui desde a década de 1950, quando a base era o orçamento que gerava o planejamento financeiro das empresas. Logo após, na década de 1980, este é guiado pela escola do planejamento a "longo prazo", se desenvolvendo para o "pensamento estratégico" em 1990, em que análises das forças e fraquezas da empresa e do ambiente interno e externo dão base às diretrizes e ações das empresas. Posteriormente, a escola da gestão estratégica se solidifica, quando a efetiva valorização da estratégia veio dar um enfoque mais sistêmico do processo de planejamento.

Planejamento estratégico na construção civil
Muitos estudos e pesquisas têm se desenvolvido em relação a este tema dentro do setor de construção civil e de uma forma geral os resultados convergem à constatação de que as empresas possuem muito mais a habilidade de planejar e executar projetos, despendendo pouca atenção à gestão estratégica dentro de seu ambiente empresarial.

Constata-se também que as empresas construtoras de fato investem em programas de qualidade ou em novas tecnologias, mas nem sempre estes investimentos são bem-sucedidos e dão o retorno esperado. Isto pode ocorrer porque durante a tomada de decisão não se trabalha de maneira sistêmica e abrangente e com uma abordagem estratégica adequada.

Na última década, a construção civil no Brasil passou por fases de aceleração do seu crescimento, como demonstra o gráfico 1 extraído de uma publicação da CBIC.

O setor passou por uma intensa aceleração devido a diversos fatores ocorridos no País, os quais impulsionaram este crescimento que teve o auge no ano de 2010 e gerou a entrada de várias empresas construtoras nos mercados que demandaram esta aceleração.

Um bom exemplo é o mercado de shopping centers e hipermercados, em que empresas impulsionadas pelo cenário de uma economia favorável investem e lançam muitas unidades em diversas regiões do País.

Com isso, empresas de construção civil de pequeno e médio porte e até departamentos de obras de edificações comerciais formados dentro de empresas de construção de grande porte entram neste mercado atraente.

Porém, a situação econômica vem se alterando e, neste ano, já se registram indicadores que denotam uma retração da expansão da construção civil no País.

Esta mudança de cenário gera uma incerteza no mercado em geral e é neste momento que cresce a competitividade entre as empresas construtoras; aquelas que têm um claro objetivo e que desenvolvem um plano que vise as ações estratégicas a serem tomadas antecipadamente diante de eventuais distorções no mercado tendem a ter mais sucesso na manutenção de resultados. Assim como a falta de uma visão estratégia ocorreu no período do crescimento acelerado, acarretando avanços equivocados, severa falta de materiais e de mão de obra poderá acontecer neste momento, quando a economia do País se modifica e o mercado se retrai.

É claro que no Brasil muitas empresas construtoras têm estado atentas aos movimentos econômicos e têm procurado projetar seus negócios a médio e longo prazo, buscando novos modelos administrativos, entre eles o planejamento estratégico, porém há indicações de que ainda restam dificuldades para sua elaboração, em especial devido à visão operacional e menos tática que predomina dentro da cultura existente no setor.

Além disso, no Brasil, as empresas construtoras ainda enfrentam uma política tecnológica e industrial inconsistente e ciclos de investimentos descontínuos, o que gera a falta de estímulo para programas de longo prazo.

Estudo de caso
A fim de se obter alguns dados que pudessem parcialmente ilustrar o posicionamento de empresas construtoras de médio porte em relação a este tema, foi realizado um estudo de caso caracterizado por um levantamento de campo, o qual possibilitou tirar algumas conclusões iniciais. O estudo, que não possui caráter estatístico, pretendeu estabelecer subsídios para o projeto de doutoramento da autora, o qual possibilitará continuidade às pesquisas e consequentemente ao aprofundamento do tema em questão. O foco foi um universo de empresas de construção civil de porte médio que servem primordialmente o setor comercial/varejista.

GRÁFICO 1 - PIB BRASIL X PIB CONSTRUÇÃO CIVIL


Fonte: IBGE Contas Nacionais Trimestrais. Nova série 2006. Elaboração: Banco de Dados (CBIC)

A fim de termos uma visão mais abrangente do tema, com empresas atuantes no mesmo mercado, porém em situações econômicas diferenciadas, a mesma pesquisa foi aplicada a empresas americanas atuantes no mesmo setor. No total participaram 56 empresas, sendo 28 de origem brasileira e 28 de origem americana.


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