Construtoras adotam sistemas de reúso e aproveitamento de água de chuva, além de métodos de construção seca, para contornar falta de água nas obras | Construção Mercado

Construção

Crise hídrica

Construtoras adotam sistemas de reúso e aproveitamento de água de chuva, além de métodos de construção seca, para contornar falta de água nas obras

Por Aline Mariane
Edição 161 - Dezembro/2014
FOTO: DIVULGAÇÃO MBIGUCCI
Calhas no telhado do canteiro de obras do empreendimento Piemonte, da MBigucci, captam água da chuva

A crise hídrica que afeta o Estado de São Paulo e parte de Minas Gerais, além de gerar impactos diretos para a população, tem prejudicado o trabalho nos canteiros de obra. Recurso básico para a construção, a água é necessária em todas as etapas de uma obra, da produção do concreto ao consumo dos operários - e sua escassez já é sentida em canteiros em diferentes bairros da capital paulista. O quadro é ainda mais grave em algumas cidades do interior - regiões onde a seca, que se arrasta há meses, atinge estado crítico.

FOTO: DIVULGAÇÃO MBIGUCCI
No canteiro da MBigucci, a água é armazenada em três caixas no térreo e bombeada, posteriormente, para uma caixa superior

Uma das principais inimigas dos canteiros de obra, a chuva - agora aguardada ansiosamente - não deve vir tão cedo, ao menos no volume desejável. De acordo com Maria Assunção Silva Dias, doutora em Ciências Atmosféricas pela Universidade Estadual do Colorado (EUA) e pesquisadora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), não teremos um 2015 sem preocupações, nem na hipótese de o verão ser chuvoso.

"Estamos vindo de uma época de pouquíssimas chuvas, logo, se chover só o normal, não haverá garantia de que o ano que vem será positivo. Precisaríamos de um verão bastante chuvoso para nos certificarmos de que não haverá falta de água - e essa que é a grande preocupação", alerta a pesquisadora.

Nesse cenário, as construtoras estão buscando métodos para enfrentar a crise de abastecimento, de modo a evitar possíveis atrasos e os decorrentes prejuízos financeiros advindos de estouros no prazo. Reúso de água, compra de caminhão-pipa, construções a seco e até mesmo execução de poços artesianos em canteiros têm sido as principais alternativas dessas empresas.

"Uma das coisas que tem que avançar muito entre nós é o reúso da água. Essa medida, aliás, precisa ser considerada como algo permanente. Temos em São Paulo períodos de excesso de chuva, mas também períodos como esse, de escassez, e o regime de captação de água acaba tendo impacto no longo prazo", orienta Maria Assunção.

Contudo, em alguns locais, como Itu (SP), a falta de chuva é tão grave que inviabiliza esse tipo de solução. "Temos sentido muitos problemas em Salto (SP) e Itu, dentro da nossa jurisdição. Desde agosto, a Prefeitura de Itu proibiu o início de novas construções no município. Entre as obras que estavam em andamento, algumas possuem poços artesianos e outras são abastecidas por caminhões-pipa", afirma Fernando Alonso, coordenador da regional de Sorocaba do Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo (SindusCon-SP).

Em Minas Gerais, de acordo com Geraldo Jardim Linhares Júnior, vice-presidente da área de materiais, tecnologia e meio ambiente do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), embora a situação ainda não seja grave, construtoras já têm optado, há algum tempo, pela substituição de métodos convencionais por métodos de construção seca, de forma a criar certa independência da água.

"O consumo de água nas obras tem ficado restrito, em grande parte, às áreas de vivência, de uns tempos para cá. Nas minhas obras, por exemplo, já cheguei a gastar 10 m³ de água por dia e pagar R$ 3 mil de conta de água. Hoje pago cerca de R$ 400", ressalta Linhares Júnior.

A maioria das empresas em Minas Gerais, segundo ele, está utilizando argamassa e concreto usinado. Além disso, muitas delas têm executado poços artesianos em suas obras.

A reportagem procurou a Sabesp para tentar obter um parecer sobre a falta de água em bairros das zonas Norte e da Sul da capital paulista, mencionados pelos construtores entrevistados. Entretanto, a empresa não forneceu um panorama geral da situação, solicitando, em vez disso, os endereços dos canteiros para verificar caso a caso o que tem ocorrido.

Reúso, aproveitamento de água de chuva e construção seca
Uma das construtoras que têm sofrido com a estiagem em São Paulo é a MBigucci. A empresa decidiu implementar no início de 2014 um sistema de captação de águas de chuva, que tem apresentado bons resultados até o momento. "Mesmo com pouca chuva, conseguimos captar, em seis meses, uma boa quantidade de água. É pouco, mas gera economia. Temos aproveitado essa água para lavar o canteiro, dar descarga e até para a cura do concreto", conta Milton Bigucci Júnior, diretor técnico da construtora MBigucci.

CAPTAÇÃO DE ÁGUA DE CHUVA NA MBIGUCCI

Veja, na tabela a seguir, a economia gerada pela captação de água de chuva em canteiro da construtora MBigucci. Para os valores abaixo, foi considerado o volume de água captado em um telhado com área de 292,12 m².

As ferramentas que a construtora têm utilizado são, basicamente, duas: captação da água do telhado por meio de calhas, que escoam a água para um reservatório, de onde é distribuída para as descargas e aproveitada na cura do concreto; e reúso da água dos lavatórios dos funcionários, que é filtrada e bombeada para uma caixa d'água elevada, sendo também utilizada nas descargas e cura do concreto. De acordo com o diretor, os custos de implantação dos sistemas não oneraram o orçamento da empresa.


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