Com a desaceleração do setor da construção, segmento de componentes hidráulicos aposta em soluções para aumentar a produtividade nos canteiros | Construção Mercado

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Debate técnico

Com a desaceleração do setor da construção, segmento de componentes hidráulicos aposta em soluções para aumentar a produtividade nos canteiros

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 161 - Dezembro/2014
FOTO: MARCELO SCANDAROLI
Soluções racionalizadas, como os kits hidráulicos, aumentam produtividade das instalações

Diante de um cenário mais competitivo, em que as grandes incorporadoras têm revisto seu número de novos lançamentos e voltado a atuar em suas regiões de origem, a industrialização deve se intensificar ainda mais nos canteiros, ampliando a participação de sistemas como kits hidráulicos, shafts industrializados e banheiros prontos no mercado. "A cobrança por produtividade está aumentando e a única maneira de atingir índices melhores é trazer a indústria para dentro da obra", avalia Ernesto Matuzo, engenheiro e especialista em instalações da Gafisa.

De acordo com Miguel Bazán Roca, diretor da Barbi do Brasil, esse caminho não é novo e já foi trilhado por empresas pioneiras como Encol e Inpar. "O conceito de industrialização se pulverizou Brasil afora, criando um campo fértil para inovações. No tocante às instalações, houve mudanças importantes com a ruptura de alguns paradigmas, inclusive arquitetônicos. As tubulações, que antes eram embutidas, com alguns cuidados de projeto passaram a se tornar externas", explica.

Segundo Roca, foram fundamentais nesse processo materiais inovadores, que permitiram o desenvolvimento de sistemas hidráulicos flexíveis. "Esses materiais contribuíram para que a industrialização se consolidasse, pois permitiram que a confecção e o transporte dos kits hidráulicos acontecessem de modo bastante otimizado. Hoje, cada construtora personaliza suas soluções e há diversos fabricantes que cooperam com essa evolução."

No entanto, especialistas alertam que é preciso pensar a industrialização de modo holístico, ou seja, a partir da racionalização dos sistemas construtivos. "Há uma evolução dos sistemas hidráulicos que não é acompanhada pelos sistemas construtivos nem pelas interfaces. Tendemos a sublimá-las. É preciso pensar que qualquer inovação está dentro de um edifício, com sua operação e suas necessidades de manutenção", explica Vera Hachich, diretora da Tesis Engenharia.

A engenheira lembra ainda que, com a publicação da sexta e última parte da Norma de Desempenho (NBR 15.575), sobre sistemas hidrossanitários, o item manutenção deve ter um impacto ainda maior no fornecimento dos produtos e também nas responsabilidades que as construtoras terão de assumir para garantir a vida útil dos materiais e dos componentes, um dos principais pontos abordados pelo texto. "As formas de pensar projeto, operação e manutenção serão mudadas", acredita.

Materiais e componentes
Independentemente da opção pelos sistemas industrializados, a escolha dos materiais e componentes de hidráulica deve sempre considerar o local de aplicação (interno ou exposto ao tempo), tipo de distribuição (água quente ou fria), pressão máxima de trabalho de cada material e o diâmetro da tubulação. "Também é importante considerar se a tubulação será rígida ou flexível e a resistência mecânica, sobretudo para tubos aplicados fora da alvenaria em ambientes hidráulicos, como cozinhas e banheiros", explica Roca.

"É importante pensar sempre na melhor opção de acordo com o sistema construtivo e com a ocupação da edificação, considerando a necessidade de manutenção e operação do sistema hidrossanitário. A partir da escolha da solução, é fundamental selecionar os fornecedores qualificados pelo Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H) para garantir desempenho e vida útil", completa Vera.

Antes de determinar as soluções de projeto, é recomendável discutir com o incorporador a melhor solução para realizar a distribuição aérea no empreendimento. Com os novos materiais existentes no mercado, a gama de opções construtivas para o projetista e o construtor é cada vez maior. Hoje, é possível prever a tubulação entre o forro de gesso e a laje, sob sancas de gesso ou ainda alocar a tubulação dentro de um tubo guia na laje. "Essas opções têm grande impacto nos custos e no tempo de execução e devem ser avaliadas em conjunto, levando em conta as características do empreendimento", conta Roca.

Também é importante considerar se o projeto hidráulico prevê aquecimento de água por gerador central, aquecedor de passagem a gás individual ou chuveiro elétrico, além da utilização de shafts para realizar as descidas do ramal aéreo para o sub-ramal (pontos de consumo), evitando a quebra da alvenaria. Se a opção for pela industrialização, o projeto deve dispensar instalações embutidas na parede. "Além do retrabalho, esse erro contribuiria para gerar mais entulho em obra e diminuir a produtividade desses sistemas", acrescenta.

Já no projeto de edificações verticais, as pressões de entrada de água nos apartamentos de todos os pavimentos devem ser equalizadas, o que pode ser feito com o uso de mais válvulas reguladoras de pressão. Com um número maior de zonas de pressão, será possível diminuir a variação das pressões entre os andares, permitindo o correto dimensionamento hidráulico dos ramais e sub-ramais e o funcionamento mais econômico dos aparelhos sanitários. "Também é recomendável que todos os projetos prevejam a medição individualizada da água. Em alguns municípios, isso já é uma exigência", lembra Roca.

ENTREVISTA - ORESTES GONÇALVES

Vida útil garantida

Quais são as responsabilidades do projetista, do fabricante e do cliente no tocante à vida útil dos componentes do sistema hidráulico?
O fabricante deve fornecer a vida útil estimada de acordo com as condições de instalação e operação e passar essas informações para o projetista, pois elas devem estar casadas com a vida útil geral do projeto. Os fabricantes, de modo geral, estão profundamente envolvidos nesse processo. A área de projeto deverá passar por uma transformação, ainda não sentida e absorvida. Essa transição será lenta. Além do projeto, as condições de operação impactam na garantia do bom desempenho das instalações. Há uma corrente de responsabilidades a serem compartilhadas.

A execução também deve ser levada em conta na hora de mensurar o desempenho do sistema?
Qualquer componente da instalação hidráulica depende muitíssimo da qualidade da instalação. A instalação de uma tubulação tensionada, por exemplo, pode comprometer toda a sua durabilidade. Há uma interação entre sistemas e subsistemas que também deve ser levada em conta na etapa de projeto.

FOTO: MARCELO SCANDAROLI


'Qualquer componente da instalação hidráulica depende muitíssimo da qualidade da instalação. A instalação de uma tubulação tensionada, por exemplo, pode comprometer toda a sua durabilidade'

Orestes Gonçalves
diretor da Tesis Engenharia

E quanto à etapa de manutenção?
Há uma intervenção também durante essa etapa, é importante lembrar. A grande preocupação da cadeia é saber se há qualificação para operar e manter esses componentes de modo a garantir sua vida útil. Todo o sistema hidráulico é complexo e o grau de complexidade dessas instalações pode variar bastante. Por exemplo, um sistema que conte com medição industrializada e uso de energia solar torna a complexidade do traçado, da topologia e dos equipamentos muito maior, demandando ainda mais especialização da mão de obra que irá mantê-los.

Projetistas e construtoras já estão bem abastecidas com informações sobre a vida útil dos equipamentos e componentes dos sistemas hidráulicos?
Ainda não temos o cenário ideal. Todos estão se movendo lentamente. Em um primeiro momento, ninguém quer assumir a mudança. Há sistemas que são extremamente complexos. Na concepção do sistema hidráulico, é fundamental levar em conta o perfil do usuário, se ele terá condições de operar soluções complexas ou se na região haverá facilidade de reposição de peças.


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