Construtoras, entidades setoriais e fornecedores se mobilizam e aumentam uso do processo de Modelagem da Informação da Construção no País | Construção Mercado

Construção

BIM

Construtoras, entidades setoriais e fornecedores se mobilizam e aumentam uso do processo de Modelagem da Informação da Construção no País

Fernando Augusto Corrêa da Silva
Edição 162 - Janeiro/2015

Dados econômicos recentes do setor da construção civil indicam que os ganhos nos últimos sete anos, oriundos do acréscimo de 24% nos lançamentos ao ano e da elevação média de 50% da receita líquida das empresas de capital aberto, acarretaram em alta de 60% nos custos e queda de 5% nos resultados. Ficou, portanto, evidente a necessidade de aumentos de eficiência, ou seja, produtividade, principalmente agora que o mercado apresenta sinais claros de demanda e preços acomodados, com queda no volume de construções e menor nível de absorção de mão de obra.

Com a maturação do setor de construção, neste período de análise (últimos sete anos), é premente garantir os retornos previstos aos stockholders, dadas as perdas ocorridas. Para tanto, a clareza dos dados de controle, bem como a discussão da responsabilidade de todos os envolvidos, é fundamental para a garantia de ganhos confiáveis. As perdas contabilizadas de 2009 a 2013 pelas empresas que fizeram oferta pública de ações (IPO) na década passada justificam o investimento para o custeio de ações para mudanças que garantam tais promessas.

MARCELO SCANDAROLI



O processo BIM não é mais visto como somente um identificador de conflitos de projetos, mas sim um organizador e fornecedor de dados confiáveis para os processos de gestão e de controle de obras



É notório que o ambiente técnico- econômico do setor está propício à implementação de inovações tecnológicas que fomentem tais mudanças. A Modelagem da Informação da Construção (BIM, do inglês Building Information Model) no Brasil apresenta-se como uma das fortes alternativas tecnológicas disponíveis que vem maturando nestes últimos sete anos, a exemplo do que ocorreu no período fortemente recessivo nos Estados Unidos, entre 2009 e 2013, quando o BIM teve sua disseminação acelerada.

O processo BIM não é mais visto como somente um identificador de conflitos de projetos, mas sim um organizador e fornecedor de dados confiáveis para os processos de gestão e de controle de obras, bem como a manutenção dos ativos gerados. Propicia melhor previsibilidade e confiabilidade ao mercado, auxiliando e testando inovações que levem à melhoria de eficiências de mão de obra, aplicação de materiais, logística e racionalização de nossos canteiros, gerando produtos finais melhores e com retornos mais precisos.

Setor público
Por parte do poder público, órgãos como Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), Metrô de São Paulo, Exército, Petrobras, Infraero e Secretaria de Obras de Santa Catarina são alguns dos que já possuem contratos de projetos de obras em BIM. Também o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) vem incentivando e implementando diversas ações para disseminá-lo.

O Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) subsidiou a finalização do Sistema de Classificação da Informação da Construção (NBR 15.965), e o MDIC firmou contrato com o Exército para a criação de Bibliotecas de Componentes Nacionais, que serão disponibilizadas por meio de um novo portal a ser criado. Ressalta-se a contribuição da comissão de estudo de modelagem de informação da construção (ABNT/CEE-134), que, junto com o Grupo de Trabalho de Componentes BIM, vem desenvolvendo as diretrizes para desenvolvimento de bibliotecas de componentes BIM e para desenvolvimento da norma brasileira sobre a tecnologia.

Estas ações fazem parte de um grande movimento governamental, observado e acompanhado pelo Ministério das Cidades, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, que objetivam sua implementação dentro do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) e de futuros contratos voltados à infraestrutura. A transparência gerada pela implementação do processo BIM daria a confiabilidade esperada e necessária na gestão dos programas do atual e futuros governos.

Setor privado
O BIM vem sendo implementado de forma paulatina em empresas de projeto, construtoras e incorporadoras. Considerando 2009 como ano do início da implantação dentro das construtoras e incorporadoras, quando somente tínhamos cases de Matec, Método, Gafisa e Sinco Engenharia, hoje somam outras empresas como Odebrecht, Tecnisa, Hochtief, JHSF, Engevix, Rossi, CCDI, Birmann, Racional, Tischmam, Morar, entre outras.

O mercado já consegue contratar um time completo de projetistas das principais disciplinas (arquitetura, estrutura, instalações hidroeletromecânicas) que desenvolvem projetos em BIM. Empresas de projeto começam a oferecer soluções integradas, dentro de valores compatíveis e bem similares aos projetos 2D. Alguns projetos já modelados saíram dos escritórios e foram para as obras gerando facilidades de controle e planejamento. Cada vez mais teremos o BIM inserido na produção das edificações. As reclamações daqueles projetistas que haviam investido na implementação do BIM em seus escritórios, e não vinham sendo demandados, parece estar no início do seu fim.

Alguns fabricantes como Deca, Tigre e Pormade deram passos à frente em seus mercados, criando e disponibilizando bibliotecas de seus produtos. Em uma reunião com as câmaras setoriais na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que participam do Programa Setorial da Qualidade do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H), os fabricantes de diversos setores da construção receberam proposta para alinhar o papel da indústria de produtos e componentes para construção em relação ao BIM. Ficaram claras as grandes vantagens do processo que facilitará as especificações de produtos, dando agilidade às cotações, criando os produtos virtuais que acompanharão as edificações virtuais, do projeto à sua manutenção.

Assim como o Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de São Paulo (SindusCon-SP), diversas entidades setoriais têm procurado contribuir na disseminação do processo BIM, com ações independentes, que, se coordenadas, podem gerar maior velocidade na implementação em todo o País.

O público de 450 presentes, vindos de 17 Estados, no 5º Seminário Internacional BIM do SindusCon-SP, ocorrido em outubro de 2014, certifica que o processo já possui massa crítica para sua implementação. José Romeu Ferraz Neto, presidente do SindusCon-SP, anunciou no evento que está sendo criado o Building Owners Group Brazil, aos moldes do que existe nos Estados Unidos, com foco no processo BIM para a otimização no projeto, construção e principalmente gestão e manutenção dos empreendimentos de geração de renda, residenciais e comerciais.

Academia
Um dos principais pontos desta agenda diz respeito à formação de mão de obra técnica e acadêmica, na qual devem ser analisados e propostos novos currículos, pois com a inserção da modelagem na construção, o trabalho de times interdisciplinares sobre um mesmo modelo exigirá profissionais diferenciados dos que temos no mercado. Universidades como Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie (FAU Mack) têm trabalhado para a inserção do tema em seus currículos, porém entraves organizacionais e/ou institucionais não têm permitido ainda maior velocidade.

Mercado de software
O mercado de softwares parece ter entendido que somente o acréscimo de venda de seus produtos, sem um apoio de qualidade na sua implementação, foi prejudicial, gerando grandes esforços das empresas que investiram em seus produtos e tiveram baixo nível de resultado. Os grandes players deste mercado têm assistido e participado do grande movimento de concorrentes, como a entrada de novas empresas. Com acréscimo da concorrência, passaremos a ter uma diversidade maior de produtos e contínua melhora nas soluções, que terão como lastro a interoperabilidade de seus produtos por meio da adoção do formato IFC.

Novas e importantes pautas estão sendo inseridas dentro de todo este processo BIM nacional, como:

A introdução do Integrated Project Delivery (IPD), que inova os processos de trabalho e compartilhamento de dados, equipes de projeto e construção aumentando sua eficácia.

A formatação de novos contratos que devem definir as responsabilidades sob o foco BIM, como os contratos de Engineering, Procurement and Construction Contracts (EPC) e o contrato de Aliança, dando um novo lastro jurídico necessário, a exemplo do que ocorreu na Inglaterra: a partir de 2016, todas as obras governamentais deverão ser entregues modeladas.

Portanto, a implementação de uma moderna indústria da construção, mais organizada, com rastreabilidade de todos os seus dados ao longo de toda a sua vida útil, com gestão transparente e eficiente, faz parte desta agenda BIM. Devemos ter como ganho periférico uma construção cada vez mais modulada, pré-fabricada e sistêmica, com canteiros de obra se aproximando cada vez mais de uma linha de montagem, garantindo melhores resultados. Desta forma, preparemos o setor da construção civil para um novo momento, quando do retorno ao crescimento de nossa economia.

Fernando Augusto Corrêa da Silva
diretor da Sinco Consórcio Técnico e coordenador do Comitê de Tecnologia, Qualidade e Meio Ambiente (CTQ) do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP).

Destaques da Loja Pini
Aplicativos