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Serviços planejados - Grande quantidade de terceirizadas no canteiro exige das construtoras planejamento e verificação contínua das frentes de trabalho

Por Aline Mariane
Edição 162 - Janeiro/2015

TEMIROPIX/SHUTTERSTOCK

Para dar início ao serviço de revestimento de um apartamento de cobertura, os funcionários da Serra e Freitas tiveram de aguardar o término do serviço anterior, que estava atrasado. A empreiteira não podia começar a execução enquanto a laje e a última viga não tivessem sido concretadas. Ao fechar contrato com a construtora, o diretor Genildo Carmo Freitas havia acordado um cronograma de trabalho e montado uma equipe para trabalhar no canteiro. Porém, por conta desse atraso, teve de adiar a entrada de sua equipe na obra e prorrogar o prazo de execução - o que gerou prejuízos financeiros. "Mesmo não produzindo, eu tenho custos com transportes, café da manhã, décimo terceiro, pagamento de FGTS", explica Freitas.

A situação, que já ocorreu muitas vezes com a Serra e Freitas Revestimentos, é comum nos canteiros de obras e afeta o cronograma de diversas construtoras, gerando retrabalho e impactando negativamente nos prazos. Consulta realizada pela PINI nos meses de outubro e novembro de 2014 com engenheiros e gestores de construtoras mostrou que o problema é relevante, grave ou muito grave para 84% dos entrevistados. A responsabilidade sobre a questão, entretanto, é incerta: para 55% dos entrevistados, as interferências do trabalho de uma empreiteira no trabalho de outra devem-se a falhas do engenheiro de obra ou da equipe de planejamento. Para os 45% restantes, o problema está com as empreiteiras ou com a mão de obra.

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'Como normalmente o planejamento é falho ou está em nível muito macro, os empreiteiros começam a ter problemas uns com os outros, com interferências de serviços ou retrabalhos'

André Choma
engenheiro da Vale

Tudo começa com a grande quantidade de empreiteiras em canteiros. Segundo estudo elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em 2007, uma obra chega a receber cerca de 20 empreiteiras e há dificuldades para gerir todas elas em campo.

"Como normalmente o planejamento é falho ou está em nível muito macro, não enxergando esses aspectos mais detalhados, os empreiteiros começam a ter problemas uns com os outros, com interferências de serviços ou retrabalhos. Isso tudo depois volta em forma de aditivo contra a própria construtora", afirma André Choma, engenheiro na Vale.

Na opinião das fontes consultadas pela reportagem, cabe à equipe de planejamento da construtora evitar erros de cronograma e interferências de serviços no canteiro. Aspectos como queda na produtividade, atrasos na finalização dos processos e choque entre diferentes frentes de trabalho devem ser verificados regularmente. A solução está no planejamento prévio da obra. Ou seja, há que se projetar tudo o que será realizado no canteiro antes do início da construção, estabelecendo um roteiro detalhado de atividades.

Primeiramente, as equipes devem ser definidas e os sistemas escolhidos. Após a definição das empreiteiras que serão contratadas para cada um dos tipos de serviço, é preciso elaborar o cronograma, apontando qual será o prazo de cada tarefa.

Novas formas de planejamento
Foi o que fez a Trisul na obra do empreendimento Paisagy Mooca, em São Paulo. Com o objetivo de aprimorar a gestão de empreiteiras, a companhia implementou um novo modelo de planejamento. Conforme explica Roberto Pastor, diretor técnico da Trisul, a definição da empresa responsável pela execução da estrutura foi antecipada em alguns meses, de modo a assegurar o cumprimento dos prazos. Até o fechamento desta edição, a estrutura estava com seis lajes executadas - e o empreiteiro responsável pela fachada já havia sido definido.

É fundamental que o planejamento seja realizado pela construtora ao lado das empreiteiras. Ao realizar o cronograma, é necessário que a contratante converse com a empreiteira que fará o serviço para verificar viabilidade e metodologia - não sendo suficiente apenas passar o valor fechado e mandá-la executar.

Por conta da falta de envolvimento da empreiteira no planejamento dos serviços, a BKO Engenharia vem sofrendo com atraso e aumento de custos na obra de um empreendimento em Santos (SP). O projeto de estrutura previa vigas demasiadamente pesadas e muitos pilares. De acordo com Carlos Gustavo Marucio, diretor de engenharia da BKO, a postura adotada pela empresa anteriormente era passar a informação do volume da estrutura do prédio e pedir o preço para a empreiteira, sem discutir o projeto.

"Nós tínhamos uma viga de transição no térreo e, no planejamento, ninguém previu que essa viga tinha que ficar mais de 30 dias escorada, porque todos os pilares do prédio nasciam sobre ela. Então, a execução da laje demorou muito mais tempo do que foi planejado, porque não conversamos. Entramos no ciclo de repetir o comportamento padrão", conta.

A construtora está agora com quatro meses de atraso na obra e foi necessário aditivo para a execução da laje. A empreiteira teve de permanecer na obra pelo dobro do tempo previsto para concluir o serviço, com impacto sobre seu faturamento. "Ele perdeu dinheiro e a gente teve que sentar à mesa de novo e renegociar o contrato. Tudo isso gera retrabalho. A obra não evoluía e foi necessário assumir o aditivo e o atraso. O segredo está definitivamente em aceitar que a construção se faz antes do início da obra", complementa Marucio.

Com a construção em curso, é preciso que a construtora atualize o planejamento semanal ou quinzenalmente. Na MBigucci, por exemplo, para cada obra são realizadas reuniões semanais com todos os empreiteiros presentes e também com os engenheiros responsáveis, com o objetivo de verificar o andamento das execuções.

"Nessa reunião semanal é possível prever que na semana seguinte, ou dentro de 15 dias, terá início um novo serviço. Programamos a contratação de uma nova empresa, de um novo empreiteiro ou da entrada de uma nova frente de trabalho", explica Milton Bigucci Júnior, diretor técnico da construtora.

Para Genildo Freitas, inteirar as empreiteiras do andamento da obra e dos serviços das demais empresas presentes no canteiro é fundamental para seu próprio planejamento e gestão. "Sem isso, é como se quiséssemos acertar o alvo no escuro. Com uma programação de tarefas, tudo funciona melhor", acredita.

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