Queda no volume de negócios observada nos últimos anos tem levado construtoras de volta à prática da locação de equipamentos. Modalidade exige atenção a detalhes do contrato para evitar risco de multas e custos elevados | Construção Mercado

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Comodidade de aluguel

Queda no volume de negócios observada nos últimos anos tem levado construtoras de volta à prática da locação de equipamentos. Modalidade exige atenção a detalhes do contrato para evitar risco de multas e custos elevados

Por Gisele Cichinelli
Edição 163 - Fevereiro/2015
 

Grande quantidade de peças - com alta incidência de perdas - colocam os escoramentos no primeiro lugar dos equipamentos mais problemáticos ao alugar. Para minimizar problemas, contrato deve ser bastante detalhado e abranger condições de devolução

Depois do forte movimento de compra registrado em 2011, no auge do ciclo de expansão da construção, a opção pela locação de equipamentos voltou a ganhar força nos últimos anos. Segundo dados da Associação Brasileira de Locadoras de Equipamentos (Alec), 2014 registrou aumento do volume de equipamentos locados entre 25% e 30% em relação a 2013, ano em que o setor já havia registrado crescimento superior a 25%.

Além da necessidade de reduzir custos operacionais e aumentar a produtividade nas obras, a praticidade também tem pesado na balança na hora das empresas decidirem por essa modalidade de contratação. Ao locar, as construtoras terceirizam atividades importantes, como armazenamento e manutenção e, em muitos casos, até mesmo a operação do equipamento. "A locação é uma decisão inteligente, pois as empresas podem programar o tempo de utilização dos equipamentos e pagar somente por esta utilização, sem ter que se preocupar com a manutenção e estocagem destes ativos", lembra Fernando Forjaz, presidente da Alec.

Apesar das vantagens, é preciso estar atento ao contratar qualquer serviço envolvendo equipamentos. Historicamente, um dos maiores pontos de estresse na relação entre contratantes e contratados diz respeito às indenizações cobradas em casos de falta de manutenção e limpeza, avarias e perdas de peças. "Já chegamos a pagar 10% a mais do valor global do contrato quando o usual é pagarmos 1%. Passamos por situações abusivas, mas conseguimos contornar com negociações e o final foi harmonioso e sem prejuízo para ambas as partes", conta Bruno Siqueira Freire, gerente de suprimentos da Tarjab, empresa que costuma contratar elevadores de cremalheira e escoramentos.

Ele lembra que, devido à grande quantidade de peças, todos os contratos de serviços de escoramento envolvem conflitos, com indenizações, ao final do negócio. O preço unitário cobrado pelas peças também é fonte de queixa. "Os valores cobrados são de peças novas quando, na verdade, não recebemos peças novas", completa Freire.

Serviços de escoramento, aliás, também figuram no topo da lista dos itens a serem indenizados pela Porte Engenharia e Urbanismo. "Sem dúvida, a maior fonte de problemas de ressarcimento, quer por extravios, quer por manutenção de peças, são os escoramentos metálicos. Mas também já enfrentamos indenizações com gruas, guinchos, bombas de drenagem e marteletes", conta o engenheiro Tadeu Colonese.

Para Eurimilson Daniel, vice-presidente da Associação Brasileira de Tecnologia para a Construção e Mineração (Sobratema), desgastes na relação com os clientes são comuns, mas a evolução é perceptível. "Com empresas que possuem corpo técnico mais evoluído e com gestão e governança mais estruturadas, os desgastes são menores. Algumas, inclusive, possuem estruturas próprias de operação, zelando pela produtividade e as cláusulas que foram acordadas na contratação", conta.

Fotos: Marcelo Scandaroli
Para locação, equipamentos sem operadores, como andaimes, tendem a apresentar mais problemas na devolução do que os operados por mão de obra oferecida pelo contratante, como é o caso de gruas

Clareza
Segundo a Alec, grande parte das indenizações ocorre por utilização inadequada, falta de cuidado na condução e falta de lubrificação dos motores estacionários. "Cabe aos locatários zelar pelo equipamento. Quebras por mau uso devem ser indenizadas, como acontece em qualquer segmento de mercado. Nosso lucro é obtido na atividade de locação e não pelas indenizações, que só servem para garantir a reposição dos bens", observa Forjaz.

Daniel lembra que as indenizações são legais e previstas em contratos. Embora haja relatos de cobranças abusivas e má-fé de ambos os lados, o engenheiro lembra que, na maior parte dos casos, as negociações podem ser bem flexíveis, sobretudo quando as empresas mantêm relação sólida com os clientes. "Nessas situações, raramente se cobram indenizações em casos de pequenas avarias. É preciso avaliar cada caso com bom-senso", completa.

Para evitar problemas de má interpretação, o ideal é que os contratos sejam simples e objetivos, limitando os riscos de cada lado. Dependendo do tipo de equipamento, também é necessário contar com seguro, cobrindo o segurado em casos de furto ou roubo dentro da obra.

A subjetividade na mensuração dos valores a serem pagos, no entanto, pode trazer surpresas desagradáveis ao final da negociação. O ideal é que os contratos prevejam custos de reposição de cada peça em caso de avarias, perdas ou falta de manutenção, diminuindo conflitos no caso de indenizações. "Se as regras foram claras e houver boa gestão, os problemas tendem a ser mínimos. Mas é fundamental que as condições sejam acordadas previamente, evitando interpretações divergentes dos contratos", lembra Marcelo Pulcinelli, diretor de engenharia da Matec.

Ele lembra que as contratações exigem muita habilidade jurídica para definir termos e condições de devolução. "É comum que fornecedoras e construtoras negociem valores de locação cuidadosamente, mas, quando se trata das condições das indenizações, esses cuidados se perdem. É preciso ser detalhista", completa Pulcinelli.

Divulgação: Sobratema

"Não sou a favor de cobrar lucro cessante. Se a máquina ficar 90 dias parada, não acho justo a construtora pagar por isso"
Eurimilson Daniel vice-presidente da Associação Brasileira de Tecnologia para a Construção e Mineração (Sobratema)

Quem paga?
A reforma de um equipamento nunca pode ser mais cara que o valor do equipamento novo. "O que deve ser computado é a depreciação. Não sou a favor de cobrar lucro cessante. Se a máquina ficar 90 dias parada, não acho justo a construtora pagar por isso. Se o fornecedor colocar essa cláusula, isso deve ser acordado com clareza", pontua Daniel.

O engenheiro lembra que os locadores devem deixar claro no contrato que o cliente tem o compromisso de arcar com danos em casos de má utilização. "Os pneus das máquinas, por exemplo, apresentam desgaste natural, mas se furar por uso incorreto, esse prejuízo deverá ser pago pelo contratante", acredita. Sob esse aspecto, é fundamental diferenciar mau uso de desgaste, sendo que este último não deve ser cobrado à parte do valor da locação.

A conta poderá ser assumida tanto pela construtora como pela empreiteira. O repasse da conta, no entanto, também pode acrescentar uma dose a mais de estresse, sobretudo se a empresa não tiver condições de assumir a indenização. "Como trabalhamos com mão de obra própria, arcamos com as despesas. Mas, quando os serviços de estrutura são terceirizados, essa conta é repassada ao empreiteiro", conta Freire, da Tarjab. A mesma postura é adotada pela Porte, que estabelece em contrato a responsabilidade pelo uso do equipamento, bem como sobre o transporte, a organização em canteiro e a devolução. "Em casos de danos ou extravios, descontamos os valores devidos", explica Colonese.

 

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