Fundações profundas | Construção Mercado

Debates Técnicos

Fundações profundas

Com equipamentos de ponta à disposição, segmento ainda sofre com problemas no traço do concreto e na contratação de projetistas, especialmente fora das regiões Sul e Sudeste

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 163 - Fevereiro/2015
 

Marcelo Scandaroli

Fundações indiretas, como estacas ou tubulões, são indicadas quando as camadas mais superficiais do terreno são muito compressíveis ou insuficientes para atender às cargas do projeto. Há uma variedade considerável de sistemas, equipamentos e processos de execução de fundações indiretas e a escolha da solução deve ser baseada em critérios técnicos. "O menor custo nem sempre é o melhor custo", lembra Ilan Gotlieb, diretor da MG&A Consultores de Solo e da Associação Brasileira de Empresas de Projetos e Consultoria em Engenharia Geotécnica (Abeg).

Dentre os fatores a serem considerados durante a análise do sistema ideal estão a grandeza das cargas e esforços a serem transmitidos às fundações e a resistência do solo, a capacidade do equipamento e do tipo de fundação de atingir as camadas mais profundas, além do nível d'água e os impactos que poderão gerar nas estruturas e edificações vizinhas. A logística de transporte, disponibilidade de equipamentos, fornecedores e mão de obra de execução no local da obra também são fatores a serem considerados. "Só depois de analisar todos esses itens é que se faz uma comparação de custos, sempre entre soluções tecnicamente equivalentes", lembra Ivan Grandis, diretor da IGR Consultoria de Solos e Fundações e Serviços Geotécnicos.

Basicamente, é possível classificar as fundações profundas por estacas em dois grupos: pré-moldadas (metálicas e de concreto) e moldadas in loco (as mais usuais são estacas-raiz, Franki, Strauss, hélice contínua monitorada e estacas-barrete e estacões).

Pré-moldadas
De modo geral, o controle de qualidade do concreto é uma das principais vantagens das estacas pré-moldadas. Além de eliminar o fornecimento de concreto na obra e a contratação de laboratórios de controle tecnológico, o sistema também permite o controle de cravação com leituras de negas e repiques em cada estaca. "É possível ter controle imediato da qualidade do estaqueamento, enquanto métodos moldados in loco, com exceção das estacas Franki, não permitem esse tipo de controle. Cabe ressaltar que isso não elimina a necessidade de provas de carga", explica Gotlieb. Outra vantagem é eliminar a geração de resíduos de solo.

Sua utilização é ideal em casos onde as camadas de solo são muito moles e razoavelmente uniformes até profundidades conhecidas pela sondagem. Por outro lado, explica Grandis, podem apresentar problemas como quebra durante a cravação, necessidade de emendas na obra e limitações para absorverem carregamentos muito elevados. "Também podem apresentar problemas de fixação de comprimento para terrenos muito heterogêneos ou ocorrência de obstáculos no trajeto de cravação, como ocorrência de pedras ou matacões em solos residuais ou rochas alteradas", complementa.

Outro ponto desfavorável são as limitações dimensionais - possuem diâmetros de até 70 cm, no máximo, contra os 200 cm alcançados com estacões moldados in loco. "Por isso, são indicadas para obras industriais e coorporativas com plantas horizontais", lembra Gotlieb, observando que o método executivo por cravação pode ser bastante ruidoso e provocar vibração, causando desconforto à vizinhança em obras localizadas em regiões urbanas densamente ocupadas e com construções de qualidade precária.

Moldadas in loco
Estacas moldadas in loco, quando usadas em condições favoráveis de terreno, são indicadas para obras em áreas urbanas, pois eliminam a necessidade de cravação e, consequentemente, a vibração no processo executivo. Indicadas para solos heterogêneos - com camadas resistentes intercaladas às camadas mais fracas de solo -, os métodos executivos (perfuração ou escavação) permitem atravessar tais camadas impossíveis de se atingir com a cravação. "Obviamente, essa vantagem deve ser observada levando-se em conta o tipo de fundação e de equipamentos utilizados", observa Gotlieb.

O projetista lembra que a região de Santos, no litoral paulista, por exemplo, tem como característica a existência de uma camada superficial relativamente espessa de areias compactas, que apresentam grande resistência à cravação de estacas pré-moldadas de concreto sem a utilização de sistema de pré-perfuração. "Por isso, a escolha por estacas moldada in loco passa a ser interessante, pois a camada mencionada pode ser atravessada sem grandes sacrifícios", conta.

Outra particularidade dessas estacas é a possibilidade de atingir maiores diâmetros e profundidades sem emendas. Com a hélice contínua monitorada, por exemplo, é possível chegar a 1,20 m de diâmetro e até 32 m de profundidade. No entanto, exigem controle rigoroso do concreto e destinação do solo retirado para bota-foras. "Essas estacas devem atingir o comprimento definido e os equipamentos têm de apresentar potência e características necessárias para levá-las até a profundidade indicada no projeto, o que é uma vantagem. Por outro lado, estão mais sujeitas a intercorrências executivas", explica Grandis.

Em terrenos com camadas espessas de solo mole, no entanto, a solução pode não ser a mais indicada pelo risco de estrangulamento do fuste das estacas por pressão durante a execução, ou até mesmo seccionamento completo, conforme completa Gotlieb.

Novidades
Apesar do comportamento diverso dos solos, o que torna as soluções individualizadas, o uso das estacas hélice contínua no segmento imobiliário aumentou bastante nos últimos anos. "A alta produtividade e preço competitivo têm levado à maior utilização desse sistema", observa Frederico Falconi, diretor da ZF & Engenheiros Associados.

Já as estacas Ômega, que permitem deslocamento lateral do terreno e podem chegar a 28 m de profundidade, tendem a ganhar aplicação particularmente por não demandarem a retirada do solo. "São promissoras em obras onde existem limitações ambientais rígidas", lembra Grandis. A maior difusão do sistema, no entanto, ainda emperra na baixa oferta de equipamentos, além da necessidade de torques muito mais elevados do que as hélices contínuas. "A grande inovação do setor, até agora, foi o desenvolvimento tecnológico dos equipamentos", acredita o consultor.

 

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