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Impactos e oportunidades da operação Lava Jato

Por Alessandra Ribeiro e Mariana Oliveira
Edição 165 - Abril/2015

A evolução da Operação Lava Jato com o envolvimento de 23 empreiteiras relevantes na cena nacional fez com que a consultoria Tendências revisasse substancialmente a projeção do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano. Não só a relevância dos impactos diretos dos investimentos da Petrobras e das empreiteiras, como toda a cadeia envolvida, explicam o significativo impacto negativo na economia brasileira, que deve registrar retração de 1,2% em 2015. É fato que o desempenho da economia seria fraco diante do enfrentamento dos desequilíbrios econômicos acumulados nos últimos anos. Mas o fenômeno Lava Jato tornou o cenário muito pior.

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Desempenho da economia seria fraco diante dos desequilíbrios nos últimos anos. Mas o fenômeno Lava Jato tornou o cenário muito pior

A alteração na projeção do PIB deste ano entre o final do ano passado e início deste ano foi de 2,2 pontos porcentuais (p.p.), considerando que a projeção passou de alta de 1,0% para o atual patamar de queda de 1,2%. A maior parte dessa mudança decorreu dos efeitos da Operação Lava jato (-1,9 p.p.), sendo que o recuo restante, cerca de 0,3 p.p., resultou da incorporação dos impactos do racionamento hídrico que já está em andamento na Região Sudeste.

Para estimar os efeitos do escândalo sobre o PIB, a Tendências considerou a informação contida no último balanço divulgado pela Petrobras, que sinaliza um corte de 30% dos investimentos da companhia. Os investimentos da estatal, por sua vez, respondem por 2% do PIB. Somando os investimentos das empreiteiras focados em infraestrutura, que de acordo com nossos cálculos totalizam cerca de 2,8% do PIB, conclui-se que os investimentos das companhias envolvidas no escândalo respondem por quase 5% do PIB.

No entanto, sabemos que há os efeitos secundários do investimento na economia, o conhecido efeito cadeia, na medida em que a construção de um galpão ou rodovia, por exemplo, necessita de trabalhadores, que ganham salários e que, por sua vez, passam a consumir mais. Além dos insumos e dos equipamentos para levarem as obras para frente. Em suma, quando é considerado o efeito cadeia desses investimentos, tem-se ao redor de 10% do PIB envolvido no escândalo.

Assim, considerando um corte de 30% dos investimentos da Petrobras e uma hipótese conservadora de corte dos investimentos das empreiteiras de 15%, uma vez que já enfrentam restrição de financiamento, seja pelo custo significativamente alto ou por restrição de oferta em alguns casos, o impacto esperado para o PIB é de queda de 1,9 p.p. É válido ressaltar, entretanto, que diante da atual conjuntura, o risco é de cortes ainda mais significativos nos investimentos tanto no caso da Petrobras quanto das empreiteiras, o que significa dizer que os riscos para o PIB seguem assimétricos para baixo.

Os efeitos sobre o PIB devem ser mais sentidos no PIB industrial, com destaque para o PIB do setor da construção, que deve registrar contração de 9,4%, após uma queda que deve ficar na casa de 6,1% em 2014. Adicionalmente, o PIB da indústria de transformação deve sofrer impacto relevante, para o qual estimamos contração de 3,7%, após queda que deve ficar em 4,2% em 2014.

ÍNDICE DE ATIVIDADE DA CONSTRUÇÃO IMOBILIÁRIA

Lançamentos por tipo de imóveis (taxa de crescimento acumulada em 12 meses até dezembro de 2014)

Fonte: Monitor da Construção Civil (MCC), Consultoria Tendências

Do ponto de vista de demanda, os impactos ficarão concentrados certamente em investimentos, que depois de ter sofrido com retração que deve ficar na casa de 8,5% ano passado, deve registrar nova retração ao redor de 7,0%. Assim, a relação entre investimentos (excluindo estoques) e o PIB deve cair novamente para um patamar inferior a 16%, voltando para os níveis observados em 2003. Este baixo patamar de investimentos em relação ao PIB é, inclusive, uma má notícia para o médio prazo, na medida em que limita o crescimento potencial da economia brasileira. Outro impacto substancial deve se dar no consumo das famílias, na medida em que um dos efeitos da Lava Jato será a demissão de trabalhadores. Assim, o aumento do desemprego e a inflação elevada devem resultar em contração da renda real (queda de 0,5% neste ano), algo que não acontecia também desde 2003.

Setor imobiliário
Este ambiente adverso, que culmina em importante crise de confiança, tem amplo impacto sobre o setor imobiliário. As vendas de imóveis novos, considerando São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Maceió, Goiânia e Belo Horizonte, devem manter ritmo fraco, com alta de 5,6% em 2015, após recuo de 27,3% em 2014, sendo o nível de vendas esperado inferior ao praticado em todos os anos entre 2007 e 2013. A ligeira alta esperada deve-se especialmente à trajetória mais contida de preço dos imóveis, fator que já vem se verificando nos últimos meses.

A fraqueza no setor imobiliário é evidenciada pelo Índice de Atividade da Construção Imobiliária (IACI) - indicador elaborado pela Tendências - que mostrou recuo de 5,3% na área total em construção de obras imobiliárias em 2014. A queda registrada especialmente nas obras em fase de fundação (baixa de 26,4% em 2014) indica arrefecimento para as fases seguintes da construção, de estrutura e acabamento, nos próximos meses.

Já as informações de lançamentos, antecedente para todas as fases da atividade do setor, mostram recuo de 32,8% em 2014. Não por acaso, diante das perspectivas negativas para a atividade econômica no País, o desempenho é puxado pelos empreendimentos comerciais (-66,3%). Mas os lançamentos residenciais também mostram queda (-25,3%), indicando perspectiva nada alentadora para o setor nos meses à frente.

Oportunidades
Diante deste cenário dramático, a pergunta que se coloca é: mas não há nada que se possa fazer para ao menos suavizar os impactos da Lava Jato na economia especialmente em um momento de necessidade de investimentos em infraestrutura?

No curtíssimo prazo, é difícil, pois, infelizmente, as empresas envolvidas tocam uma boa parte dos projetos de infraestrutura no País. No entanto, toda a crise cria janela de oportunidades. Neste sentido, há a possibilidade de empresas nacionais de médio porte associarem-se a empresas estrangeiras, tendo em vista aumentar sua participação no mercado, inclusive, em novas concessões de infraestrutura. Adicionalmente, há a possibilidade de se abrir o mercado para empresas de construção estrangeiras, para possibilitar que os projetos em ferrovias, portos, aeroportos e rodovias saiam do papel. Mas isso leva tempo.

Alessandra Ribeiro sócia e economista da área de Macroeconomia e Política da consultoria Tendências

Mariana Oliveira especialista em construção civil da área de Análise Setorial da consultoria Tendências

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