A globalização na indústria da construção | Construção Mercado

Artigo

Real Estate

A globalização na indústria da construção

Por: Maurício Bernardes
Edição 178 - Maio/2016
 

ACERVO PESSOAL
[Novos paradigmas guiarão a formação e a atuação dos profissionais de engenharia e arquitetura]

O fenômeno da globalização, que expôs a economia brasileira a uma competição acirrada em inúmeros segmentos, possivelmente trará o mesmo destino ao mercado da construção civil nacional. Não me refiro aos novos sistemas e técnicas construtivas isoladamente, mas sim a novos construtores e desenvolvedores imobiliários internacionais, com novos conceitos de engenharia e de negócios. Onde há mercado com demanda reprimida, como no caso brasileiro, é natural que se projete o acirramento da competição quando as condições econômicas alcançarem maior estabilidade.

Há diversas empresas internacionais, com espírito de indústria, que vêm se notabilizando por disputar negócios fora de seus países de origem. A Hyundai Engineering and Construction (Hyundai E&C) é um exemplo disto. Fundada em 1947, foi precursora do grande conglomerado sul-coreano de empresas que se consolidou nas décadas seguintes.

Com a visão de conectar pessoas, culturas e regiões por meio da construção civil, a Hyundai E&C é a maior empresa do segmento na Coreia do Sul, acumulando em 2013 a impressionante marca de US$ 100 bilhões contratados fora daquele país, com obras inclusive na América do Sul (Venezuela, Colômbia, Uruguai e Chile). Alcançou em 2015 um lucro líquido de mais de US$ 500 milhões, contra cerca de US$ 300 milhões em 2013.

Com uma forte visão de liderança, a empresa tem investido no desenvolvimento de tecnologias com baixa pegada de carbono, no uso de energias renováveis e na gestão de recursos hídricos. Esta visão decorre de megatendências e de oportunidades mapeadas pela companhia. Entre essas megatendências, destacam-se: 1) o aumento da população nas cidades e seu empobrecimento; 2) a intensificação da escassez de água com prejuízo ao desenvolvimento e à expansão de negócios; 3) as mudanças bruscas na oferta e no preço de combustíveis e na política energética internacional; 4) a intensificação da escassez de recursos naturais.

Como reflexo dessas megatendências, a empresa enxergou muitas oportunidades: 1) idealização e oferta de infraestrutura urbana que privilegie conceitos de "smart cities and smart services", que tratam de gestão integrada de serviços públicos com apoio de tecnologia da informação com foco em eficiência e eficácia; 2) atuação nas áreas de tratamento da água e no desenvolvimento de tecnologias de reabilitação ambiental; 3) atuação na área de energias renováveis com tecnologias de alta eficiência e de baixa pegada de carbono; 4) desenvolvimento de tecnologias de reciclagem de materiais e desenvolvimento de materiais alternativos. Competir com empresas orientadas pelo conceito da "indústria da construção", com visões audaciosas sobre o futuro do segmento, exigirá novas competências e uma nova forma de atuação das empresas nacionais, com investimentos significativos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico (P&D) e em gestão do conhecimento. A Hyundai E&C possui um time com mais de 180 pessoas trabalhando exclusivamente na área de P&D, com um orçamento anual da ordem de US$ 27 milhões e 90 patentes aplicadas em 2015.

FOTOS: DIVULGAÇÃO HILLSTATE/HYUNDAI E&C
A Hillstate, braço imobiliário da Hyundai E&C, foi fundada em 2006. Nas fotos está o seu principal projeto: o complexo residencial Gimpo Gochon, com 2.605 apartamentos em 57 prédios

Diversificação
Com o objetivo de se tornar líder mundial no segmento da construção, a empresa sul-coreana oferece soluções completas em todas as fases de um negócio: concepção, planejamento, construção, gestão e operação.

Interessante notar que, além de se colocar como uma empresa de desenvolvimento imobiliário internacional, a Hyundai E&C ampliou seu escopo e também atua em áreas correlatas como a de infraestrutura de transportes e a de gerenciamento de facilidades (planejamento e operação de processos para que se consiga integrar de forma eficiente as edificações aos seus sistemas, equipamentos e serviços).

Além da construção de pontes, túneis , estradas e estações de dessalinização estão entre os projetos com a participação da empresa para os próximos anos a construção de uma instalação industrial de gás natural no Kuwait (Al-Zour LNG Import Terminal), orçada em quase US$ 3 bilhões, e a construção do complexo Global Business Center (GBC) da Hyundai Motor Group em Seul. Num terreno de quase 80 mil m² com quase 1 milhão de metros quadrados de construção previstos, divididos em seis edificações, com uma de suas torres alcançando 105 andares, o GBC será erguido em cinco anos.

Também merece destaque o Museu Nacional do Qatar, uma obra com 135 mil m² formada por 316 grandes "discos" construídos em ângulos diferentes. O projeto teve as fases de construção e operação idealizadas e planejadas com utilização do Building Information Modeling (BIM) ou Modelagem da Informação na Construção).

Museu Nacional do Qatar, obra da Hyundai E&C formada por 316 grandes "discos" construídos em ângulos diferentes com utilização do BIM

Imobiliário
Desde 2006, a Hyundai E&C também constituiu uma marca própria para atuação no segmento imobiliário: a Hillstate. Com atuação dirigida ao segmento de alto padrão, vem se notabilizando em projetos de grande porte e de maior valor agregado. Um desses exemplos é o Gimpo Gochon Hillstate, empreendimento residencial na Coreia do Sul com 2.605 apartamentos dispostos em 57 prédios que variam entre dez e 15 pavimentos, mais dois subsolos. Cerca de 40% da área destinada ao empreendimento foi utilizada pela empresa na construção de parques para a vizinhança. O complexo foi erguido em 31 meses a um custo de construção de cerca de US$ 90 milhões.

Quando houver a retomada do crescimento do setor da construção civil brasileiro, e caso se confirme a tendência de aumento do custo de mão de obra, de forma similar ao que observamos até 2013, novos paradigmas guiarão a formação e a atuação dos profissionais de engenharia e arquitetura. Estarmos atentos e preparados para a industrialização em escala que se aproxima é uma tarefa que deveríamos iniciar o mais rápido possível.

Maurício Bernardes
Gerente de desenvolvimento tecnológico na Tecnisa e autor do blog Tecnologia e Sustentabilidade, na Piniweb

 

Destaques da Loja Pini
Aplicativos